Portuguese poem
O Meu Mal
A meu irmão
Eu tenho lido em mim, sei-me de cór, Eu sei o nome ao meu estranho mal: Eu sei que fui a renda dum vitral, Que fui cipréste e caravela e dôr!
Fui tudo que no mundo ha de maior; Fui cisne e lirio e águia e catedral! E fui, talvez, um verso de Nerval, Ou um cínico riso de Chamfort...
Fui a heráldica flôr de agrestes cardos, Deram as minhas mãos arôma aos nardos... Deu côr ao eloendro a minha bôca...
Ah! De Boabdil fui lágrima na Espanha! E foi de lá que eu trouxe esta ancia estranha! Mágua não sei de quê! Saudade louca!
A NOITE DESCE...
Como pálpebras rôxas que tombassem Sobre uns olhos cançados, carinhosas, A noite desce... Ah! dôces mãos piedosas Que os meus olhos tristissimos fechassem!
Assim mãos de bondade me embalassem! Assim me adormecessem, caridosas, E em braçadas de lirios e mimosas, No crepúsculo que desce me enterrassem!
A noite em sombra e fumo se desfaz... Perfume de baunilha ou de lilaz, A noite põe-me embriagada, louca!
E a noite vai descendo, muda e calma... Meu dôce Amôr, tu beijas a minh'alma Beijando nesta hora a minha bôca!