Versos Portuguese Florbela Espanca Teus Olhos

Portuguese poem

Teus Olhos

by

Listen in the reader

Olhos do meu Amor! Infantes loiros Que trazem os meus presos, endoidados! Nêles deixei, um dia, os meus tesoiros: Meus anéis, minhas rendas, meus brocados.

Nêles ficaram meus palácios moiros, Meus carros de combate, destroçados, Os meus diamantes, todos os meus oiros Que trouxe d'Além-Mundos ignorados!

Olhos do meu Amor! Fontes... cisternas... Enigmáticas campas medievais... Jardins de Espanha... catedrais eternas...

Berço vindo do céu à minha porta... Ó meu leito de núpcias irreais!... Meu sumptuoso túmulo de morta!...

He hum não querer mais que bem querer. Camões.

Gosto de ti apaixonadamente, De ti que és a vitória, a salvação, De ti que me trouxeste pela mão Até ao brilho desta chama quente.

A tua linda voz de água corrente Ensinou-me a cantar... e essa canção Foi ritmo nos meus versos de paixão, Foi graça no meu peito de descrente.

Bordão a amparar minha cegueira, Da noite negra o mágico farol, Cravos rubros a arder numa fogueira!

E eu, que era neste mundo uma vencida, Ergo a cabeça ao alto, encaro o sol! —Águia real, apontas-me a subida!

Meu amor, meu amado, vê... repara: Poisa os teus lindos olhos de oiro em mim, —Dos meus beijos de amor Deus fêz-me avara Para nunca os contares até ao fim.

Meus olhos têm tons de pedra rara, —É só para teu bem que os tenho assim— E as minhas mãos são fontes de água clara A cantar sôbre a sêde dum jardim.

Sou triste como a fôlha ao abandôno Num parque solitário, pelo Outono, Sôbre um lago onde vogam nenúfares...

Deus fêz-me atravessar o teu caminho... —Que contas dás a Deus indo sòzinho, Passando junto a mim, sem me encontrares?—

Frémito do meu corpo a procurar-te, Febre das minhas mãos na tua pele Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel, Doido anseio dos meus braços a abraçar-te,

Olhos buscando os teus por tôda a parte, Sêde de beijos, amargor de fel, Estonteante fome, áspera e cruel, Que nada existe que a mitigue e a farte!

E vejo-te tão longe! Sinto a tua alma Junto da minha, uma lagoa calma, A dizer-me, a cantar que me não amas...

E o meu coração que tu não sentes, Vai boiando ao acaso das correntes, Esquife negro sôbre um mar de chamas...

És tu! És tu! Sempre vieste, emfim! Oiço de novo o riso dos teus passos! És tu que eu vejo a estender-me os braços Que Deus criou p'ra me abraçar a mim!

Tudo é divino e santo visto assim... Foram-se os desalentos, os cansaços... O mundo não é mundo: é um jardim! Um céu aberto: longes, os espaços!

Prende-me tôda, Amor, prende-me bem! Que vês tu em redor? Não há ninguém! A terra?—Um astro morto que flutua...

Tudo o que é chama a arder, tudo o que sente, Tudo o que é vida e vibra eternamente É tu seres meu, Amor, e eu ser tua!

Dize-me, amor, como te sou querida, Conta-me a glória do teu sonho eleito, Aninha-me a sorrir junto ao teu peito, Arranca-me dos pântanos da vida.

Embriagada numa estranha lida, Trago nas mãos o coração desfeito. Mostra-me a luz, ensina-me o preceito Que me salve e levante redimida!

Nesta negra cisterna em que me afundo, Sem quimeras, sem crenças, sem ternura, Agonia sem fé dum moribundo,

Grito o teu nome numa sêde estranha, Como se fôsse, Amor, tôda a frescura Das cristalinas águas da montanha!

Falo de ti às pedras das estradas, E ao sol que é loiro como o teu olhar, Falo ao rio, que desdobra a faïscar, Vestidos de Princesas e de Fadas;

Falo às gaivotas de asas desdobradas, Lembrando lenços brancos a acenar. E aos mastros que apunhalam o luar Na solidão das noites consteladas;

Digo os anseios, os sonhos, os desejos Donde a tua alma, tonta de vitória, Levanta ao céu a tôrre dos meus beijos!

E os meus gritos de amor, cruzando o espaço, Sôbre os brocados fúlgidos da glória, São astros que me tombam do regaço!

São mortos os que nunca acreditaram Que esta vida é sòmente uma passagem Um atalho sombrio, uma païsagem Onde os nossos sentidos se poisaram.

São mortos os que nunca alevantaram Dentre escombros a Tôrre de Menagem Dos seus sonhos de orgulho e de coragem, E os que não riram e os que não choraram.

Que Deus faça de mim, quando eu morrer, Quando eu partir para o País da Luz, A sombra calma dum entardecer—,

Tombando, em doces pregas de mortalha, Sôbre o teu corpo heróico, pôsto em cruz Na solidão dum campo de batalha!

Abrir os olhos, procurar a luz, De coração erguido ao alto, em chama, Que tudo neste mundo se reduz A ver os astros cintilar na lama!

Amar o sol da glória e a voz da fama Que em clamorosos gritos se traduz! Com misericórdia, amar quem nos não ama, E deixar que nos preguem numa cruz!

Sôbre um sonho desfeito erguer a tôrre Doutro sonho mais alto e, se êsse morre Mais outro e outro ainda, tôda a vida!

Que importa que nos vençam desenganos, Se pudermos contar os nossos anos Assim como degraus duma subida?

Perdi os meus fantásticos castelos Como névoa distante que se esfuma... Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los: Quebrei as minhas lanças uma a uma!

Perdi minhas galeras entre os gêlos Que se afundaram sôbre um mar de bruma... —Tantos escolhos! Quem podia vê-los?— Deitei-me ao mar e não salvei nenhuma!

Perdi a minha taça, o meu anel, A minha cota de aço, o meu corcel, Perdi meu elmo de oiro e pedrarias...

Sobem-me aos lábios súplicas estranhas... Sôbre o meu coração pesam montanhas... Olho assombrada as minhas mãos vazias...