Portuguese poem
_O Lobo E O Cão_
by Francisco Palha (1827–1890)
Traducção da fabula de Lafontaine--Le Loup et le Chien
Não tinha um lobo mais que a pelle e o osso. Signal é que de orelha arrebitada bem vigilante andava a canzoada. Encontra o lobo um dógue forte, grosso, nutrido, luzidio, uma belleza! que distraído abandonára a estrada. Sorri-lhe a nedia preza! Saltar-lhe logo ali, fazêl-a em postas o seu desejo fôra. Dura empreza! A lucta era infallivel. Voltar costas não usam perros quando são valentes, e, mais, os brutos! dão ás vezes cabo do fero contendor! Diabo!... Diabo! Então aquelle, com aquelles dentes!
*
Humilde o lobo, pois, encolhe a cauda; chega-se ao cão; abaixa-lhe a cabeça; puxa conversa; diz que folga em vêl-o, que deixe que elle admire, que elle applauda topal-o assim... e com tão bom cabello!... e rijo! e gordo! Um frade! Uma abbadessa!
«Esplendido senhor»,--o cão responde;-- «de vós depende o ter igual gordura. Fugí dos bosques, onde por teima da desgraça de fome e frio só achaes fartura, vós, senhor lobo, e a vossa pifia raça. Dias e dias sem comerem nada! e lá por festas, raras, esquecidas, um petisquinho conquistado á espada, tragado ás escondidas! Ahi é certa a morte! Furtae-vos a seus braços! Seguí... seguí meus passos; tereis outro destino e melhor sorte.» --Mas como?--volve o lobo. --Fazer então que devo?-- «Bagatella: nem morte d'homem nem de egreja roubo; simplesmente estas coisas: não dar tregoa á santa gente rôta, mendicante, bordão n'uma das mãos, n'outra a tigela, que vem inda a distancia d'uma legoa e já tresanda a essencia de tratante. Lamber as mãos ao dono; ser submisso... dar cóca, é o termo proprio, ao dono e a todo quanto bicho careta houver em casa. Salario apanhareis que vos apraza: ossos das aves, rodas de chouriço, restos vindos da mesa, e tudo a rôdo! Até uns tagatés em cima d'isso!»
*
Tendo prestado ao cão attento ouvido o lobo, coitadinho! com perspectiva tal enternecido não tugiu nem mugiu, mas fez beicinho.
*
Iam caminho já do povoado quando o lobo notou que no pescoço o cão era pellado. --Que tens ahi?--pergunta em alvoroço. «Nada, que eu saiba.» --Nada?!-- «Frioleira.» --Mas afinal o que é?-- «Ora!... A colleira com que á noite me prendem junto á porta...» --Prender-te?!--o lobo exclama.--Não saes fóra, não corres livre pela terra inteira quando te dá na gana, e a toda a hora?-- «Nem sempre. Isso que importa?!» --Tanto importa que toda a trincadeira com que me acenas, um thesouro embora, por tal preço não quero.-- O lobo finda; põe-se logo na perna, e corre ainda.