Portuguese poem
_Estrella Cadente_
by Francisco Palha (1827–1890)
Ella não tinha ainda os seus vinte annos. Eu já cincoenta, ou mais. Poucos enganos podia haver na conta. Trouxe-a ao cóllo! Não fôra um pólo em frente do outro pólo; mas, inda assim, contando-se este caso, dir-se-ia ao certo: Era uma vez o Occaso, e era uma vez a Aurora... Não sei como n'um bello dia, por ser vedado o pomo, por ser appetitoso, finalmente não sei porquê!... por eu ser um demente... por ser ella o retrato da que é morta... fosse lá porque fosse!--Isso o que importa n'um bello dia--amei-a!... Uma doença que a gente apanha quando menos pensa.
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Sorriam de piedade os meus amigos todos á uma, e os novos e os antigos. Nas salas bichanava-se em cochichos: «Ora, o ginja! aparando inda os esguichos com que o bisnaga amor! Atraz da pomba, o perfido lacrau!» Deitavam tromba os outros pretendentes. Um barulho por nada. Então porquê?! Por um arrulho?... Um simples suspirar?... Pois que mau era brotar-me em pleno inverno a primavera?... Durava pouco?... Tanto quanto dura em toda a terra tudo o que é ventura. Engeita-se por isso?... A minha idade?! Fui de Mathusalem socio e confrade. Adão dizia ao vêr-me: Olá, compadre! Contemporaneo eu sou do eterno Padre. Não ha mais nada acima. Querem isto?... O Padre, o velho, foi mais tarde o Christo. Ondas d'amor jorrou d'aquelle peito. Remiu. Salvou. Pôz termo ao longo pleito entre as trevas e a luz, e, porque vinha em nome só do amor, annos que tinha ninguem lh'o perguntou. Sinceramente: ha rugas dentro d'alma?!...
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Impenitente morrera n'esta fé; sobre o Evangelho jurára que mais ama o que é mais velho; se o ponto da questão, o delicado, outro não fôra; um velho ser amado! Aqui é que me dóe! É necessario primeiro formular um questionario. Menos se quer á flôr, menos se trata, por ser de argilla o vaso e não de prata? Aqui... além... embora onde estiveres... não és, ó flôr, a mesma?... e das mulheres, --não digo já de todas; mas d'algumas-- igualmente o boudoir tu não perfumas?... Não busca asylo a crença, a christandade não presta o culto seu á Divindade no templo secular, de negro aspecto, humida arcada, abobadas por tecto, como na alegre ermida redourada, quente aos raios do sol, sempre inundada de jubilos e festa?!... Amor travêsso, só por vêr para dentro, vê do avêsso?
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Não te illudas, ó louco! A Providencia dependente do amor fez a existencia. Para estimulo a amor fez a belleza, o viço, a força, quanto com certeza tu já não tens. Por isso no concurso aos vagos corações a pelle do urso, a penna luzidia do bom pato, dão por si preferencia ao candidato. Esta a verdade crua. O sentimento depois é que se faz. É-lhe fermento, é mister que primeiro insuffle a arteria, e n'ella o sangue injecte, a vil materia. A bocca, um pé, a guia d'um bigode mais que as almas em fogo sempre póde. E tu não valsas!... tu não tens bocca o argot da moda, a phrase insossa e ôca! Por mais ciré, torcido, repintado, que o teu bigode vá... bigodeado és tu que ficas, velho! a torto e a esmo!
Justo e fatal!... Fatal e justo é o mesmo.
No chão não rojes teus cabellos brancos n'um desespero ignobil! Para arrancos, para entrares no inferno como o Dante, a dôr da tua cólica é bastante. Outras não queiras, outras não procures improprias já de ti. Não; em nenhures rejuvenesce o Fausto; e, dês que ha mundo, quem disse um velho--disse um moribundo.
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Ella não tinha ainda os seus vinte annos. Por não tel-os vivia n'uns enganos que eu não devia ter nos meus cincoenta. Distraída commigo olhou attenta para um moço qualquer. Nem eu me lembro do nome d'elle já! Era em setembro. Isso sei eu. Que noite!... Estou a vêl-a! Ultima noite azul!... Rasto d'estrella, curva de luz nos amplos ceus cadente, illuminar-nos veio de repente. Ella assustou-se, e disse: Dieu te garde!
Pouco tempo depois, horas mais tarde, tal qual a estrella, em rapido trajecto, no mundo novo entrou d'um novo affecto.