Portuguese poem
_Assim É Que Eu Gósto D'Ella!_
by Francisco Palha (1827–1890)
Eu nunca fui poeta. Era loucura mostrar depois de velho pretensões quando as não tive em horas de ventura, de tão dôces, mas breves, illusões.
Então era a minh'alma que gemia no vago anceio d'onde nasce o amor; mas hoje sei que amor no mesmo dia nasce, esmorece, e morre como a flôr.
Da meiga briza o tépido bafejo, a rosa perfumada, o pôr do sol, as nuvens d'oiro,--esplendido cortejo do astro-rei, a voz do rouxinol;
Esse hymno immenso com que a terra exprime viva saudade pela extincta luz, se para mim então era sublime, ai! que já por meu mal me não seduz!
Quando contemplo agora o fim da tarde, quando ao sumir-se no crystallino mar o facho accêso sobre as ondas arde e vae depois nas ondas mergulhar;
Sabeis vós o que penso em tal instante? --Vêde a que prosa vil isto chegou!-- Sabeis vós o que penso?'... o que lamento?... O dia mais de vida que passou.
De vida, sim, meus senhores, que não ha pechincha egual! Só algum sarrafaçal em horas de maus humores grunhirá sombrio e rouco que pelo seu fim anhela! Eu cá por mim acho pouco e morro d'amores por ella!
A vida saboreada de um certo modo que eu sei. Nem limpa-botas nem rei; trazer camisa lavada; bem lavada a consciencia; libras velhas na algibeira; ter um trem e por decencia um garoto na trazeira.
Cadeiras... todas de braços, fôfas como pão de ló. Nunca dar ponto sem nó nem pôr ponto em dar abraços. Caçadas... feitas no prato, e sobre a caça café. Charutos... dos de contracto Lib'ra nos! antes galé.
Vejam se eu dava o cavaco ou se quebrava o toutiço por ser tudo quebradiço n'este mundo como um caco! Em se quebrando... acabou-se. Ora, adeus! Fortes lamechas! Era bonito se fosse ficando tudo p'ra mechas!
Amor de marrafa branca como o cão e a cadellinha sempre fiel! Que gracinha!... Ao chá por baixo da banca dando ternas pizadellas que as meias deixam de luto, que fazem vêr as estrellas, e provam que o par é bruto.
Ter sempre o mesmo barbeiro e sempre o mesmo topete!... Á mesa do voltarete defronte o mesmo parceiro!... O molle ser sempre o molle!... sempre esperto o serigaita!... Na mesma gaita de folle soprar quem sopra tal gaita!...
Quem pensa assim... ai! coitado! ou perdeu todo o juizo, ou se tem dente do sizo pelo alveitar foi achado. Para mim que sou amante do que muda e do que mexe, como havia ser seccante o tal mundo de escabeche!
Beijar nos pulsos a algema com que Amor nos manietava; amanhã mandal-a á fava; a belleza eis do systema. Ser hoje amigo do Brito, amanhã sêl-o dos Soisas!... Viajar hoje no Egypto; vêr ámanhã novas coisas!
Isto, sim, que é prazer certo! Quem julgar que assim não presta diga adeus a esta festa que o cemiterio está perto! Pois póde haver tolerancia na China, aqui, ou em Gôa com quem defende a constancia que é a maçada em pessoa?!
Aqui d'el-rei porque mente toda a humana geração!... Grande pena!... pois então, se mente, mente-lhe a gente. Por mentira, mentirola. Por esparrella, esparrella. Assim vae esta charola: assim é que eu gosto d'ella!
Dizem que a vida os assusta porque em tudo encontram móca; que o bem a todos não toca, que a Justiça não é justa. Eu, por mim, quero-a mais larga, que, se acaso um dia fôr parar-lhe ás mãos, menos carga sobre os hombros me ha de pôr.
E se o bem me não tocar tambem uma vez sómente, ferro commigo no quente e, lá, desato a chorar. Não é mau. Dou de conselho a quem quizer divertir-se que chore em frente do espelho e por força acaba a rir-se.
Chorar é bom! Quem me dera nos tempos que já lá vão quando, moço, o coração, ao romper a primavera sobresaltado tremia, e da terra toda em flôr juntava á meiga harmonia doces lagrimas d'amor!
Se á vida não acham geito porque todos têm chorado, cá para mim vem barrado quem lhe põe este defeito. Elles que foram pequenos e contra as lagrimas chiam, de lacrima christi ao menos um copo não beberiam?
Tal resmuneia e se queixa que as filhas não fecha a mãe; que a mãe namora tambem, e mais que torna e que deixa! Ih! Jesus!... Que gritaria! Se a mãe as filhas fechasse, nenhuma as portas abria. Ai de quem as arrombasse!
Caturras! Se ha quem supponha nas politicas regiões que inda póde haver Catões sendo tão rara a vergonha!... O galante é que no jogo cada qual puxa o seu trunfo quando sem armas nem fogo alcançar póde o triumpho!
Deploram republicanos que lhes tosquiam as azas? Pois vão lá p'ra suas casas fazer dos creados--manos. Os outros temem que os thronos se despedacem? Demonio! Não lhes resta ainda, monos, os thronos de Santo Antonio?--
Tudo aqui se remedeia; tudo tem facil saída se as honras dermos á vida d'um jantar ou d'uma ceia. Quem tentar pôl-a a direito perde o tempo e a razão porque luta peito a peito com phantastica visão.
Eu nunca fui poeta. Agora vêdes que menos do que nunca aspiro a sêl-o. Se espalmar-me tentei pelas paredes do teu Parnaso, Apollo, vae-me ao pêllo!
Põe-me nú se conservo n'este fato algum resto de parvoas pretensões, já que o mundo como é, o mundo ingrato, despir-me soube as dôces illusões.
Dormi. Sonhei. Do sonho hoje acordado na prosa da verdade emfim caí; mas como tudo tem sempre um bom lado ganhei gordura se illusões perdi.