Versos Portuguese Francisco Palha _Ao Actor João Anastacio Rosa_

Portuguese poem

_Ao Actor João Anastacio Rosa_

by (1827–1890)

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que, na sua officina de sapateiro, mandára fazer para uso do author umas botas impermeaveis

Boas botas com effeito! Ha que tempos que te eu digo que, de pequeno, o teu geito é ser sapateiro, amigo!

Afóra o bico da moda, que é moda o bico hoje em dia, quem da terra andasse á roda mestre assim não toparia.

E lá no mar,--tens ratices!-- com ellas por sobre as ondas anda a gente como Ulysses nas aguas das Trabisondas.

O povo grita: Milagre!--; teus filhos:--Estamos salvos!--; e tu com graxa e vinagre vaes enganando os papalvos.

Queima a Sciencia as pestanas buscando o que seja aquillo; e nem passadas semanas conclue que é sebo de grillo!

Tu proprio chuchas no dedo, avis rara, ó raio d'ave; pois ao fechar teu segredo perdeste-lhe o tino e a chave.

Seja qual fôr teu systema, graxa só ou graxa e sebo, eu, indigena na gemma, applaudo o que não percebo.

De tão prodigioso invento só entendo, e não é pouco, que ou me saíste um portento ou és rematado louco!

Mas que importa qual diploma um logar nos dá na Historia? Toda a estrada leva a Roma. Por atalhos vae-se á gloria.

É certo que ao fim da vida a luz do provir é tua: luz accêsa sem torcida!... porta aberta com gazua!--

Vê quanto o sec'lo é fecundo! Vê; regista em tuas notas. Em poucos annos ao mundo botou dois homens das botas!