Versos Portuguese Francisco Palha _A Uma Creatura_

Portuguese poem

_A Uma Creatura_

by (1827–1890)

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Que tens tu a dizer do teu destino? Que mal... que mal te fez, ingrata, a sorte? Desunhas-te a comer queijo londrino; na polka és a mais forte; essa fulva cabeça de leôa não passa d'avellã; por isso és goso do bravo rapazio de Lisboa. Preludias na banza um rigoroso que os mortos ergue, as campas despovôa. Desmamadinho já, em salto airoso, balando, os longos ecos atordôa o teu futuro esposo. Calçando o largo pé na estreita bota encaixaste o Rocio na Bitesga. Capaz és tu de entrar, sendo janota, no ceu... por uma nesga.

Trazes um dogue ao collo... Tens na tia chaperon e banqueiro. Anda estafada a velha e mais a burra. A orthographia comtigo, ao vêr as duas, não quer nada. Quem de môlho as barbas não poria vendo a barba visinha incendiada?! Dás á lingua durante o santo dia, e bates na criada!

A coisa mais feliz de quanto existe és tu portanto. E dás então cavaco, maldizes, blasphemando, o mundo triste! e chamas-lhe velhaco!

O mundo?! O mundo o que é? Por mim supponho ser apenas ironica pilheria que Jehovah soltou quando, risonho, pretendeu descansar de empreza séria. Ha n'elle o encanto espiritual do sonho. Ha n'elle o encanto vil da vil materia. Faz rir e faz chorar, o Triboulet medonho! a divinal miseria!

A graça toda está n'estas nuances; nas sombras e na luz com que prepara da dôr e do prazer os varios lances o velho Dulcamára;

Nunca viste Neptuno carrancudo pendurar-se nas azas da procella, roçar as cãs no ceu e em silvo agudo dar por mortalha ao barco a solta vela? Agora não o vês sereno e mudo como a brincar na praia se ennovella? Pois similhante ao mar no mundo é tudo. Resigna-te, donzella.

E tudo ha de acabar, o mar e o mundo. Até do meu amor a intensidade sumir-se irá no pelago profundo da fria eternidade!

Eu escrevi--amor?! Fiz mal. É grego; é grego para ti: peior,--sãoskrito; e tu nas linguas mortas não dás rego. Se um dia, por acaso, o pequenito traquinas e cruel, alado e cego, tentasse dar-te um golpe... era bonito! Fugiria a gritar: Armas que emprego não entram no granito!

Tu partilha não tens na dôce herança dos anjos que voaram! Antro escuro a tua alma será! Nenhuma esp'rança!-- nenhum extasis puro!

Como quando ao romper da rôxa aurora deslisando na valsa doidejante soltas da trança a rosa que descora, de si te apartará n'um só instante o louco turbilhão que te enamora. Pallido o rosto, o seio palpitante, ao ceu perguntarás na dôr d'ess'hora se a morte vem distante!

O vácuo! a saciedade! o horror das trevas! Ninguem ao pé da cruz no teu calvario! Por só cortejo ao cemiterio levas um padre mercenario!

Nem esse volta lá. Rezou, e a prece, em mau latim, por bons tostões foi paga. O fardo que largou mais não merece. Recebe por adeus grosseira praga d'um coveiro que o some, e breve esquece. Grão d'areia que foste ao mar co'a vaga, quem te busca depois? Quem te conhece? Teu fim quem é que indaga?

Se é tempo, ó transviada, atraz teus passos! Abre o teu coração. A fé te anime. Não ha na vida mais estreitos laços. Amor tudo redime.

Vêl-o-has dissipar a nevoa densa que o teu dia transforma em noite escura. Respeitada serás. Trarás, suspensa de teus vermelhos labios, a ventura; que eu não sei de ninguem a quem não vença puro amor abraçado á formosura. Serás mulher,--é essa a recompensa, em vez de creatura.

Se mover-te consegue esta palestra manda morrer o cão no Instituto; compra cartilha e pedra, e prova á mestra que vales mais que o bruto.

Depois reforma a tia. Irá na Graça accender ao Senhor trezentos lumes por tirar-lhe do lombo essa carraça. Vê-se livre da espada de dois gumes que a burra lhe sangrava, e na carcassa vasto caminho abria a vãos queixumes. Menina, já que estás co'a mão na massa, reforma os teus costumes.

E como incerto é sempre o bem futuro e póde arrepender-se o arrependido, vae lá pondo, á cautela, no seguro o nome do marido.