Portuguese poem
_A Venus Nova_
by Francisco Palha (1827–1890)
Não, Rachel, não desvario. Venus, o estylo é antigo, os seus dotes repartio bem largamente comtigo.
Deu-te esse corpo divino! esses seios palpitantes! Fosse eu inda pequenino e tu minh'ama! Que instantes!
Por ser branca e por ser loira tem o loiro em menos preço; por isso te deu da moira o negro cabello espesso.
Chega aos olhos... De repente vê que não tem na palheta côr nenhuma refulgente para imitar um planeta.
Corre logo á fonte limpa; e procedeu com acerto que em ocios não se repimpa quem se encontra em duro aperto.
«Ó dôce noite», ella exclama. «Tu tens estrellas a esmo. Duas quero em rubra chamma, quasi soes; dois soes. É o mesmo.»
A Noite, que é velha fina, e foi sempre a Venus dada, responde:--Minha menina, só para a outra fornada.--
«Pois ao forno! e já! que eu pago!» A Noite, ouvindo-a, lampeira. A estrada de São Thiago deitou logo na caldeira.
Fogo ao lado, e fogo ao centro! Quando a fervura era viva o sete-estrello p'ra dentro! e folhas de sensitiva!
Ao cabo de poucas horas em duas orbitas fundas despejou duas auroras com que est'alma em luz inundas.
Venus pulou de contente; mas depois... (que são mulheres!) disse á outra em tom plangente: «Adeus!... O que tu quizeres!...
«Fizeste-a fresca! Eu reinava. Era no Olympo a mais bella. Passei de rainha a escrava. A Venus agora... é ella!»