Portuguese poem
_A Julio Cesar Machado_
by Francisco Palha (1827–1890)
que em folhetim do Diario de Noticias dirigira ao author phrases benevolas
Ó Julio, ó meu amigo, o que disseste? Fallar em nós?! Fallar em mim?! Na peste d'esse Parnaso ignobil de ha trinta annos? Fui um asno sem tom, nem som, nem furo; uma coisa p'r'ahi entre os humanos como entre o trigo o joio; um insensato cuidando toda a vida que o futuro se faz sómente como o faz o gato por noites janeirinhas, e o menino d'onde ha de vir ridente, e róseo, e puro, é da raiz... do verso alexandrino! Tu verás, se viveres. O destino se condôa de ti a tempo e a horas, que eu já não temo nada. N'esta idade quanto mais o doutor me põe escoras mais depressa galopo á Eternidade. No dia em que florir a ideia nova nem restos ha de mim na escura cova. Depois... Pensando bem, ás vezes julgo que não deve ser mau vêr estes numes na faina redemptora! E, mais, o vulgo já não crê n'outro Deus! Os bons costumes vão apanhar por fim um São Martinho qual nunca lhes foi dado... excepto em vinho que embrutece a razão! Pois com certeza leva uma razzia o Torres e o Cartaxo! Ou bem que a gente é gente ou que é um cacho! D'amor, que é velho, temos conversado! Rua com elle! Amor é uma fraqueza. É velho e cego, e não espera luas, e quando lhe appetece faz das suas, e são as suas d'elle o vil peccado! Basta cortar-lhe bem a ponta da aza e triumpha a moral. Rapaziada, nunca mais andarás no mundo em braza atraz da tua amada!
Mudei de metro como d'alimaria muda Tinoco, o bravo, na tourada, pois quanto em verso a fórma fôr mais vária menor é a massada.
Calcule-se o porvir pelo presente. Nós somos democratas; e fique o ponto assente. Noventa e tres é tudo quanto, em datas, a Historia nos tem dado mais nobre, e santo, e digno de imitado.
Amor... e guilhotina! Luz d'uma aurora, d'um incendio chamma! Mayonnaise de sangue e de doutrina! Quanto o homem sublima e quanto o infama! Noventa e tres e a França! Eis o lemma, eis o exemplo, a viva esp'rança.
Anda tu cá, ó lemma, que te quero! Dom Bertholdinho a dar-se um ar de Nero! Somos, sim, democratas... á capucha; Marats de sêda frouxa; uma chalaça com Marselheza indigena,--a Cachucha. Palavra! que tem graça!
Que o bom senso, tão raro! nos acuda; nos tome um dia a sério! Não ha Sebastião nenhum da Arruda, suando phalansterio, que não mande estampar nos seus bilhetes armas ducaes, brazões de pataratas! Morremos por trincar a monarchia; mas trincamos-lhe a ceia e os sorvetes emquanto lá do ceu Deus não envia novo maná... de instituições baratas!... Uns typos! Bons, pacatos, sem ter odios nem bombas... a não ser de Santo Antonio, bombas de luxo, bombas só de estrondo; indo buscar pretextos para brodios a casa do demonio, e quando os não achamos nem dentro em nossa casa nem na estranha, calçado a polimento o pé redondo, vazio o coração, repleta a entranha, vêr desfilar a procissão de Ramos. E n'este ambiente, em pleno Rilhafolles, no ardor da Saturnal, sonhaste, ó Julio, que um velho gordo, com as carnes molles, sem ter outro peculio além do rheumatismo, sertanejo, viria em petit-maitre dar aos folles do outr'ora enamorado realejo?
Desde que o maganão do deus Cupido não tem na aljava setta que me fira, passou-me do sentido tudo quanto em rapaz tanto sentira. Rabisaltona musa é hoje em dia quem me ampara e conforta, e quem me inspira. Quando fugir, morri. Outra alegria qual te foi dada a ti, sol na velhice, conceder-m'o não quiz quem bem podia. E fez uma tolice. Eu sei se a fez, ou não; modestia á parte.
E só para dizer-te uma palavra d'affecto e gratidão moí d'est'arte a tua paciencia! Antes do Lavra subisses a calçada, ou lesses uma peça premiada. Era muito, bem sei; mas era menos.
Obrigado, meu Julio. Isto, em resumo, devera ter escripto. O mais é fumo. Deixa-o seguir no espaço o ignoto rumo, e dá saudades minhas aos pequenos.