Portuguese poem
_Ás Rãs Pedindo Rei_
by Francisco Palha (1827–1890)
Traducção da fabula de Lafontaine--Les Grenouilles
Viviam certas rãs n'um charco immundo em republica plena. Era um pagode! Tal qual uns democratas que ha no mundo julgando que a republica, no fundo, outra coisa não é senão a gente fazer o que bem quer e quanto póde, a rã tripudiava impunemente. Todos os dias era certo o choque entre o batrachio forte, intransigente, e parte da nação já descontente que a Jupiter pedia ou rei ou roque.
O deus fez-lhe a vontade. Largou-lhe lá do ceu um rei pacato, de summa gravidade.
Das alturas tombando, o rei na quéda fez tal espalhafato, que as fêmeas em pavor, os machos fulos, aquellas saltitando, estes aos pulos, como é uso das rãs nas grandes crises, cada qual a gritar:--arreda! arreda!-- entre os juncaes, no lôdo, nas raizes dos salgueiraes se enreda.
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Por longo tempo em seus esconderijos das rãs esteve homiziado o povo. Transformaram-se em medo os regosijos da antiga bacchanal. Gigante novo cuidavam ser o rei que o ceu lhes déra. Não ousavam sequer saír da tóca; pois, não raro, os instinctos maus da fera por imprudente a presa é que os provoca.
Já n'essas eras muito a pêllo vinha dizer: Cautela e caldos de gallinha...
O rei era um pedaço de madeira. Nem mais, nem menos. N'uma bella tarde uma das rãs, por ser menos covarde ou mais bisbilhoteira, tirou-se de cuidados, manso e manso na flôr das aguas surge, e ás guinadinhas com muito tento e geito do cêpo se aproxima. Após ella vem outra... e outra... aos centos. Vendo que o rei não sae do seu ripanso, rodeiam-no; coaxam: Salta acima!... e coaxado e feito!...
O rei, temido outr'ora, ás pecuinhas d'essa chusma villã se vê sujeito. Em rapido momento sobre elle a malta audaz se encarapita, e faz do bom monarcha um bom assento. Nem chus nem bus! Calado que nem porta, qual fôra n'outros tempos!... Isto irrita. Rompem as rãs então n'uma algazarra que o pantano atordôa, os fios d'alma a quem as ouve corta. «Leva d'aqui, ó Jove, esta almanjarra que nem mexe, nem pune, nem perdôa, e mais parece uma alimaria morta, cabide d'uma c'rôa, em vez de nosso rei--nossa vergonha!» Vae Jupiter que faz? Uma cegonha, das muitas que possue, logo destaca, e manda que das rãs ponha e disponha, n'uma das mãos o queijo e n'outra a faca. Ora a cegonha, apenas em seu throno dona das rãs se vê e sem ter dono, diz comsigo: --Nasci dentro d'um folle! Quem tira agora o papo da miseria sempre sou eu!...-- Passeia toda séria, perna aqui... perna além, n'um andar molle, e quanta rã apanha quanta engole.
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Geral consternação o charco enluta. Renovam-se as lamurias: que o rei é doido e tem ás vezes furias; que, doido ou não, o povo trata á bruta; por fim, que faça o deus formal promessa d'outro rei que as não coma tão depressa! O Jupiter tonante d'est'arte lhes responde: «Inutil prece! Dei-vos um rei tranquillo, inoffensivo, que nem sempre se tem nem se merece: um rei que era um regalo! Foi vêl-o e pôl-o pela barra fóra! Dei-vos segundo: um genio um pouco vivo... um pouco extravagante... Meninas, aguental-o! Era bom o primeiro e foi-se embora. É mau este de agora. Contentae-vos com elle, ó meus endezes, pois venha quem vier... peior mil vezes.»