Portuguese poem
_Em Cintra_
by Francisco Palha (1827–1890)
Tal qual como o sacrista, o velho Catecismo soletrando, primeiro se espreguiça; cabeceia depois de quando em quando; por fim já não atina se ha tres, se um cento d'inimigos d'alma; meninos e doutrina, rosnando manda á missa; engendra um travesseiro da batina; deita-se e dorme emquanto dura a calma: farto da vida fui-me estiraçando n'este alcantil, onde aves de rapina fizeram ninho outr'ora. Ao longe o sol declina; já sobre as ondas arde. Soltando a voz sonora n'um murmurio suave expira a tarde.
Ai! quem me dera aqui morrer agora!... Não ha somno melhor!... Somno?... Sería?... Eu penso que não é, que sentiria em torno do meu sêr, do meu sêr novo, uma coisa qualquer que a phantasia não ousa precisar, á qual aspiro, para a qual vou fugindo, que me chama, na qual hei de caír como em seu giro alado insecto vae caír na chamma.
Não é tolice, não. Quem n'este mundo diria afoito ao sabio mais profundo, se n'esse tempo o mundo sabios tinha, que dentro da gallinha estava um ovo e dentro d'aquelle ovo outra gallinha?... Assim succede em tudo. Muda a fórma; as condições variam da existencia; mas, por mais que a materia se transforma, intacta se conserva sempre a essencia. Logo: hei de viver. Ter consciencia d'aquillo que então fôr!...
UM CORVO (que fende o espaço, grasnando)
Senil demencia! Sobre essa rocha estoira como um ôdre: terás a mesma sorte de tudo quanto é pôdre. Serei eu só bastante para fazer-te o corpo n'um farrapo. Que vida has de viver desde esse instante mettido no meu papo? Aonde a consciencia?... o sentimento?... Perante a Eternidade tu duras um momento. Serviste o pensamento da grande Divindade; depois!... Depois da morte não és coisa que importe do mundo ao movimento.
UMA ANDORINHA (chilreando em roda da penedia)
Ai! terra onde nasci! Ai! dôce patria minha! tão longe eu sou de ti!...
Saudosa do palmar, aqui, pobre avesinha, errante a voltear.
Um dia... qual--não sei... um dia, em vindo o inverno, de novo á patria irei.
Então sob o docel d'aquelle azul eterno, nos plainos meus d'Argel
Emfim serei feliz! Nenhuma primavera roubar-me ao meu paiz
Jamais conseguirá!... Uma outra pátria, espera, tambem te surrirá.
UM SAPO (no fundo do valle)
Cantigas! boas cantigas lá por cima oiço cantar. Do que vae cá pela terra entendem mais as formigas, sabem mais reptis na serra que os passarinhos no ar.
Deixa piar a andorinha. Bem facilmente se ad'vinha a tua sorte futura. Tu és, amigo, a doninha. É teu sapo a sepultura.
Cantigas! Boas cantigas! Quem trinca, trinca; trincou. As doninhas que hei papado por mais figas, figas, figas que as outras me têm armado, ninguem d'aqui m'as levou!
O PINHAL (ao longe)
N'um cantico dolente meus hymnos rumorejo. É Deus que passa em mim; o Deus que eu vejo em tudo o que palpita, e vive, e sente. Ó balsamica rosa, quando a fragrancia exhalas docemente da petala mimosa; lá quando do teu seio, tepido ninho d'um amor fremente, irrompem n'um gorgeio maternas alegrias, é Deus que passa, o rosto surridente, cercado de harmonias.