Portuguese poem
_Mal Por Mal..._
by Francisco Palha (1827–1890)
Eu trago em minh'alma afflicta revolto mar de agonias. Tedio da vida os meus dias, as minhas noites, agita.
Ó minhas crenças d'outr'ora, dôces amigas da infancia, a que longinqua distancia do meu peito andaes agora!
N'esta cerração escura assim me deixaes sósinho! e sem que volteis ao ninho baixarei á sepultura!
De mim te acerca bem perto, ó morte! No estreito abraço vôa commigo no espaço, leva-me d'este deserto!
Mas se na mansão infinda, onde librar-me tencionas, nos dão as mesmas taponas com que a sorte aqui nos brinda;
Se esguio velhote avaro n'essas alturas se encontra, com seu barrete de lontra, olhar e sorriso ignaro;
De fallas mansas, beato para vêr se os santos pobres, saudosos dos magros cobres, lhe vão empenhar o fato;
Se o operario, se o povo crê tambem que o mundo em ruina ha de saír da officina corrigido e mundo novo.
E em lutas, que são eternas por lhe ser eterna a peia, quebrar pretende a cadeia e quebra a si proprio as pernas;
Se n'esse logar bemdito pisamos a mesma lama que sobre a terra se chama --O Asmodeu,--O Mosquito--;
Se é Mercurio almiscarado o filho de Compostella; se por ventura um Alviella tem lá de ser encanado;
Se o Milhão é quem impera; se se fez Deus o egoismo; se ha dôres de rheumatismo, e nas vinhas phylloxera:
Fecha, ó anjo, as negras azas! que em tal apuro, olha o rente! tanto faz morrer a gente como mudar-se de casas!