Versos Portuguese Gonçalves Crespo As Velhas Negras

Portuguese poem

As Velhas Negras

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A M.^{me} Aline de Gusmão

As velhas negras, coitadas, Ao longe estam assentadas Do batuque folgasão. Pulam creoulas faceiras Em derredor das fogueiras E das pipas de alcatrão.

Na floresta rumorosa Esparge a lua formosa A clara luz tropical. Tremeluzem pyrilampos No verde-escuro dos campos E nos concavos do val.

Que noite de paz! que noite! Não se ouve o estalar do açoite, Nem as pragas do feitor! E as pobres negras, coitadas, Pendem as frontes cançadas Num lethargico torpôr!

E scismam: outrora, e d'antes Havia tambem descantes, E o tempo era tam feliz! Ai! que profunda saudade Da vida, da mocidade Nas mattas do seu paiz!

E ante o seu olhar vazio De esperanças, frio, frio Como um véu de viuvez, Resurge e chora o passado --Pobre ninho abandonado Que a neve alagou, desfez...--

E pensam nos seus amôres Ephemeros como as flôres Que o sol queima no sertão... Os filhos, quando crescidos, Foram levados, vendidos, E ninguem sabe onde estão.

Conheceram muito dono: Embalaram tanto somno De tanta sinhá gentil! Foram mucambas amadas, E agora inuteis, curvadas, Numa velhice imbecil!

No emtanto o luar de prata Envolve a collina e a matta E os cafesáes em redor! E os negros, mostrando os dentes, Saltam lepidos, contentes, No batuque estrugidor.

No espaçoso e amplo terreiro A filha do Fazendeiro, A sinhá sentimental, Ouve um primo recem-vindo, Que lhe narra o poema infindo Das noites de Portugal.

E ella avista, entre sorrisos, De uns longinquos paraisos A tentadôra visão... No emtanto as velhas, coitadas, Scismam ao longe assentadas Do batuque folgasão...