Versos Portuguese Gonçalves Dias Como! és tu?

Portuguese poem

Como! és tu?

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Como! és tu?! essa grinalda De flores de laranjeira! ... Branco véu, nuvem ligeira Sobre o teu rosto a ondear! Pálida, pálida a fronte E os olhos quase a chorar!

És tu! bem vejo... não fales! Cala-te! já sei o que é! A mão vais dar, vida e fé A outro!... Vais te casar. Pálida, pálida a fronte, Olhos em pranto a nadar!

E vais! e és tu mesma? — e vais!... Fui eu quem te dei o exemplo... Sei que te aguardam no templo, Deixa-me aqui a chorar: Fazes somente o que fiz, Não fazes mais que imitar!

Mas eu quis ver-te feliz, Não dar-te exemplo!... pensava Que ileso e firme ficava O teu amor — a guardar A fé, que eu mesmo, insensato! Fui o primeiro a quebrar!

Contradições d'alma humana! Fui, sim, quem te dei o exemplo, Isso quis, e ora contemplo Essa grinalda — a chorar, A fronte pálida, pálida, E o branco véu a ondular!

E há de o mundo inda algum dia Do olvido o véu tenebroso Estender por tanto gozo, Tanto crer, tanto esperar! Vai que te aguardam: já tardas: Deixa-me aqui a chorar!

Vai! e que os anjos derramem Sobre ti flores, venturas, Que as alegrias mais puras Floresçam dos passos teus: E que entres na casa estranha Como uma bênção dos céus!

Que a fortuna — de veludos Alcatife os teus caminhos, Que o orvalho dos teus carinhos A esse faça feliz Com quem te casas — que te ame Como te amei e te quis!

Porém procura esquecer-te, Das venturas no regaço, De mim, dos votos que faço, De quanto pedi aos céus Ver este dia... mas choro! Vai! sê feliz! adeus!