Versos Portuguese Gonçalves Dias Cumprimento de um voto

Portuguese poem

Cumprimento de um voto

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Se ao misero cantor vos praz mandar-lhe Cantar voltas de amor, á graça tanta Será mudo o cantor, nem ha de aos echos A cythara incivil fallar de amores? Mandaes, que sois, senhoras, minhas musas; Quando a senhora manda o escravo cumpre E ás supplicas da musa o vate cede! Afinada por voz a lyra humilde, Já desafeita aos sons que o peito abrandão, Á nova esphera se remonta agora.

O frescor juvenil dos vossos annos, E as que vos ornão, deleitosas graças, Hão de ameigar-lhe as cordas, perfumal-as, Dictar-lhe os faceis, inspirados carmes.

A estrella, que fulge no céo anilado, Com placido brilho de noite s’inflamma; Na fonte e no prado Reflexos luzentes esparge e derrama.

Nos ramos cobertos de ameno rocio As aves descantão á luz da alvorada, E a meiga toada Repetem aos echos do bosque sombrio.

Na gleba virente, do sol bafejada, Recende perfumes a flor matutina, Que á luz da alvorada Ao sopro da brisa de leve s’inclina.

A flor que trescala perfumes suaves, A estrella que brilha no céo anilado. E o canto das aves, Que sôa no bosque virente e copado;

Se cantão, perfumão, despedem fulgores, É tal o seu fado: — vós sois como ellas, Sois como as estrellas, Na graça e no canto, sois aves, sois flores.

Como ellas, pagai-vos de ver quão fugaces Encurtão-se as horas do nosso viver, De ver como as faces, Que tendes em torno, resumbrão prazer.

Estes versos na mente susurravão Do vate, cuja lyra merencoria Foi por vós de festões engrinaldada; Por vós, cujo sorriso mavioso

Melhor perfume exhala, do que as notas Concertadas com arte; dai um riso Dos vossos, um volver dos brandos olhos, Aos alegres convivas; e um reflexo Do vosso meigo olhar e brando riso Venha morrer na lyra do poeta, Como do astro-rei quando no occaso Doura no campo as folhas mais humildes.