Portuguese poem
Sofrimento
Meu Deus, Senhor meu Deus, o que há no mundo Que não seja sofrer? O homem nasce, e vive um só instante, E sofre até morrer!
A flor ao menos, nesse breve espaço Do seu doce viver, Encanta os ares com celeste aroma, Querida até morrer.
É breve o romper d'alva, mas ao menos Traz consigo prazer; E o homem nasce e vive um só instante: E sofre até morrer!
Meu peito de gemer já está cansado, Meus olhos de chorar; E eu sofro ainda, e já não posso alivio Sequer no pranto achar!
Já farto de viver, em meia vida, Quebrado pela dor, Meus anos hei passado, uns após outros, Sem paz e sem amor.
O amor que eu tanto amava do imo peito, Que nunca pude achar, Que embalde procurei, na flor, na planta, No prado, e terra, e mar!
E agora o que sou eu? - Pálido espectro, Que da campa fugiu; Flor ceifada em botão; imagem triste De um ente que existiu...
Não escutes, meu Deus, esta blasfêmia; Perdão, Senhor, perdão! Minha alma sinto ainda, - sinto, escuto Bater-me o coração.
Quando roja meu corpo sobre a terra, Quando me aflige a dor, Minha alma aos céus se eleva, como o incenso, Como o aroma da flor.
E eu bendigo o teu nome eterno e santo, Bendigo a minha dor, Que vai além da terra aos céus infindos Prender-me ao criador.
Bendigo o nome teu, que uma outra vida Me fez descortinar, Uma outra vida, onde não há só trevas, E nem há só penar.