Portuguese poem
Ai quem soubera querer-vos!
by Gregório de Matos (1636–1696)
Quem fora tão fino amante, que mostrara a seu objeto bem nas entranhas do afeto prendas do amor palpitante: quem nessa pira flamante purificara o temer-vos! ai quem temera ofender-vos só por amor de agradar-vos! ai quem soubera pagar-vos! Ai quem soubera querer-vos!
Quem submergido na pena prantos a mares vertera, que outro Pedro parecera, ou qual outra Madalena! mas se contudo é pequena para em justiça obrigar-vos ai quem no rumo de amar-vos, que de outro amor me desterra, fora cos olhos na terra! Ai quem soubera agradar-vos!
Se a vossa divina mão, amantíssimo Pai nosso, (como a de Tomé o vosso) palpara o meu coração: ai que delícias então sentira a razão de amar-vos! ai quem pudera mostrar-vos o fino do meu amor! e as circunstâncias da dor Ai quem soubera explicar-vos!
Entrai, Senhor, no meu peito, onde ao ver-vos retratado causa sereis, meu amado, inseparável do efeito: entrai, que sois bem aceito, pelo que sei já querer-vos, e se dentro chego a ter-vos desta minha indignidade haveis de ver na verdade, Quanto anela o bem de ver-vos.