Portuguese poem
Ai de mim! Se neste intento
by Gregório de Matos (1636–1696)
Ai de mim! Se neste intento, e costume de pecar a morte me embaraçar o salvar-me, como intento? que mau caminho freqüento para tão estreita conta; oh que pena, e oh que afronta será, quando ouvir dizer: vai, maldito, a padecer, onde Lucifer te aponta.
Valha-me Deus, que será desta minha triste vida, que assim mal logro perdida, onde, Senhor, parará? que conta se me fará lá no fim, onde se apura o mal, que sempre em mim dura, o bem, que nunca abracei, os gozos, que desprezei, por uma eterna amargura.
Que desculpa posso dar, quando ao tremendo juízo for levado de improviso, e o demônio me acusar? Como me hei de desculpar sem remédio, e sem ventura, se for para aonde dura o tormento eternamente, ao que morre impenitente sem confissão, nem fé pura.
Nome tenho de cristão, e vivo brutualmente, comunico a tanta gente sem ter, quem me dê a mão: Deus me chama co perdão por auxílios, e conselhos, eu ponho-me de joelhos e mostro-me arrependido; mas como tudo é fingido, não me valem aparelhos.
Sempre que vou confessar-me, digo, que deixo o pecado; porém torno ao mau estado, em que é certo o condenar-me: mas lá está quem há de dar-me o pago do proceder: pagarei num vivo arder de tormentos repetidos sacrilégios cometidos contra quem me deu o ser.
Mas se tenho tempo agora, e Deus me quer perdoar, que lhe hei de mais esperar, para quando? ou em qual hora? que será, quando traidora a morte me acometer, e então lugar não tiver de deixar a ocasião, na extrema condenação me hei de vir a subverter.