Versos Portuguese Gregório de Matos Agora que sobre a cama

Portuguese poem

Agora que sobre a cama

by (1636–1696)

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Agora que sobre a cama Antonica me inquieta, muito rnais estando ausente, que se na cama estivera: Agora que o meu cuidado dentro dalma me desvela, e o verdugo da memória em saudades me atormenta: Agora que o brando leito, qual duro potro me espera, porque o cordel da lembrança execute as leis da ausência: Agora que a muda noite no silêncio, que professa, como quem soube os meus gostos, mos representa na idéia: Entre o passado e presente não distingue a paciência, se é mais ativa a fortuna, nos logros ou se nas perdas: Quero queixar-me, Antonica, de vós, da vossa beleza, rigores, desatenções, esquivanças, e inclemências. Quero queixar-me de mim sobre padecer a ofensa, pois que não soube agradar-vos para forrar estas queixas. Acaso vos vi uma tarde debaixo de uma urupema por meu mal, porque entre nuvens o sol mais ativo queima. Indo ao campo buscar fresco topei, sendo pela fresca, muito calor, que me abrasa de raios da vossa esfera. Vi-vos, e rendi-me logo, e em duas ações diversas de ver-vos, e de render-me eu não sei, qual foi primeira. Permitiu minha ventura (desgraça quero eu, que seja) que não cegasse com ver-vos, para padecer mais penas. Que sempre em ódio de um triste faz mudança a natureza, pois cheguei a ver um sol, não tendo de águia as potências. Movido da mão de Amor, que as liberdades sujeita, Fênix dei a meus cuidados berço em amante fogueira. Tornei outra vez a ver-vos, e a segunda diligência, claro está, que era nascida dos acasos da primeira. De novo não me rendi, que era encontrada fineza ter ainda, que render-vos, quem a sua alma vos dera. Mas por dobrar rendimentos, e igualar correspondências, as almas multipliquei por sentidos, e potências: Tantas almas era justo, que a tantas prendas rendera, por não ficar sem triunfo a menor das vossas prendas. Favorecestes-me então, e a memória o representa, por me tirar com pesar, o que com gosto me dera. Logo vos arrependestes de uma culpa tão pequena, como é pagar com favores amantes correspondências. Estes são os meus pesares, estas, digo, as minhas queixas, que por serem de um mofino temo que soem a ofensas. E pois molesta por força estar escutando queixas, de quem finezas enfadam, já Amor nos queixumes cessa. De vós mesma me dai novas; dai-mas de vossas durezas, pois quanto mais me acrisolarn, tanto mais o amor as preza.