Portuguese poem
Alto: divino impossível
by Gregório de Matos (1636–1696)
Alto: divino impossível, de cuja dificuldade, formosura, e discrição qual é maior, não se sabe. Se impossível pelo estado, a dificuldade é grande, pois casada, e a teu gosto que força há de conquistar-te? Se impossível na dureza, a ser pedra incontrastável, basta ser de lavradora, para que nunca se lavre. Se impossível pelo estorvo da família vigilante é o impossível maior, que ao meu coração combate. Mas se és, divino impossível, de tão alta divindade, creio, que esperanças mortas ressurgirás a milagres. Se és um milagre composto de neve incendida em sangue, e sempre o Céu de tou rosto, mostra dois astros brilhantes: As mãos umas maravilhas, um par de jesmins as faces, o corpo um garbo vivente. os pés um vivo donaire: Se são milagres divinos, Francelinda, as tuas partes, para viver, quem te adora, que farás. senão milagres! Dá-me por milagre a vida na esperança de lograr-te, verás ressurgir com glória uma esperança cadáver. E se és enigma escondido, eu sou segredo inviolável, pois ouves, e não percebes, quem te diz, o que não sabes. De que selve a discrição, com que o teu nome ilustraste, sendo a Palas destes tempos, Minerva destas idades. Discorre em tuas memórias os dias, manhãs, e tardes, que foste emprego de uns olhos, que mudamente escutaste. Porque uns olhos, que atrevidos registam a divindade são sempre d'alma rendida emudecidas linguagens. Lembra-te, que em tua casa, onde cortês me hospedaste, não me guardaste o seguro das leis da hospitalidade. Por que matando-me entonces traidoramente suave me calei eu, por guardar essas leis, que tu violaste. Se inda não cais, em quem sou, porque me estrova explicar-me de uma parte o teu decoro, e o meu temor de outra parte. Terei paciência por ora, té que me tire os disfarces Amor, que com se vendar, me deu lições de vendar-me. E se penetras, quem sou, porque já o conjeturaste, e escolhes de pura ingrata não crer-me, por não pagar-me: Recorre à tua beleza, que sei, que ela há de obrigar-te a crer, que em minhas finezas corto por multas verdades. E pois me toca pesar as tuas dificuldades, e a ti tua formosura e discrição pesar cabe. Julguemos ambos de dois, qual dá cuidado mais grande, formosura, e discrição, ou tantas dificuldades.