Portuguese poem
Apareceram tão belas
by Gregório de Matos (1636–1696)
Apareceram tão belas no mar canoas, e truzes, que se o céu é mar de luzes, o mar era um céu de estrelas: era uma armada sem velas movida de outro elemento, era um prodígio, um portento ver com tanto desafogo esta navegar com fogo, se outras arribam com vento.
Sua Ilustríssima estava assustado sobre absorto, porque via um rio morto o fogo, em que se abrasava: grande cuidado Ihe dava ver, que o mar morria então infamado na opinião, e como um judeu queimado, sendo, que o mar é sagrado, que inda é mais que ser cristão.
Lá no vale ardia o ar, e por ser, comua a guerra, no mar há fogo de terra, na terra há fogo do mar: toda a esfera a retumbar fazia correspondência, e com alegre aparênca luzia na ardente empresa fogo do ar por alteza, e do mar por excelência.
Em cima as rodas paravam, que varia a fortuna toda desandava a sua roda, e as do fogo não paravam: os mestres se envergonhavam, que era Lourenço, e Diogo: e eu vi, que a Lourenço logo a face se quebrantava, com que a mim mais me queimava o seu rosto, que o seu fogo.
Deu-se fogo em conclusão a uma roda de encomenda, foi como a minha fazenda, que ardeu num abrir de mão: estava em meio do chão um rasto, para que ardesse uma câmara, e parece, que uma faísca caiu, disparou: quem jamais viu, que o fogo em câmeras desse.
Era grande a multidão do Clero, e dos Seculares, que a graça destes folgares consiste na confusão: Sua llustríssima então se foi, que o fogo não zomba, aqui queima, ali arromba: segue-lhe o vigário os trilhos, que as rodas não tinham filhos mas pariam muita bomba.
A gente ficou pasmada, porque viu a gente toda, que era a resposta da roda de bombarda respostada: ficou a turba enganada, porque enfim nos perturbarnos: mas todos nos alegramos, que isto somos, e isso fomos, que então alegres nos pomos quando mais nos enganamos.
Entre o desar, e entre o risco a noite alegre passou: que mais noite! se a gabou té o Padre São Francisco: nas mais paróquias foi cisco, foi sombra, foi ar, foi nada do nosso Prelado a entrada, e a desconfiança é vã de o Cura ter bolsa chã, se a vontade é tão sobrada.