Portuguese poem
Louvar vossas orações
by Gregório de Matos (1636–1696)
Só o vosso entendimento vos pode Tomás louvar, e eu se pudera imitar qualquer vosso pensamento: para mostrar seu talento fez um círculo em borrões Apeles com dous carvões; quem vira uma risca vossa? Riscai vós, para que eu possa Louvar vossas orações.
A causa é melhor, que o efeito na boa filosofia, e assim é vossa energia menor, que o vosso sujeito: logo se no humano peito não há alcançar o primor nas obras de tal autor, mal a causa alcançarão, pois o pregar do sermão É próprio do Pregador.
Se louvo vossa alta idéia, sou culpado em me atrever, e sou culpado em meter, a fouce em seara alheia: nesta empresa, em que receia entrar o engenho major, entra o néscio sem pavor, porque a louca valentia dá ao néscio a ousadia, E a mim me dá mais temor.
Ou cobarde, ou atrevido, ou ousado, ou não ousado hei de dizer empenhado, o que calava entendido: um amigo a vós rendido pede a vossas orações as minhas aprovações, e eu calando lhe obedeço, porque fique em maior preço O Pregador, que os sermões.