Portuguese poem
Mas se sois lince divino
by Gregório de Matos (1636–1696)
Bem sei, meu amado objeto, fazendo um breve conceito, que penetrais do meu peito o mais oculto, e secreto: bem vê meu constante afeto da vossa potência o fino, porque neste vidro indigno raiando desse Oriente, se sois sol, não só persente, Mas se sois lince divino.
Deixo à parte haver gerado vosso justo entendimento os astros, o firmamento, e todo o demais criado: e fico como elevado no poder, a que me rendo, admirando: porém vendo vossa grandeza, e poder, quando chego a comprender, Que o mais oculto estais vendo.
Quando isento o pensamento de toda a minha maldade, vós lá dessa imensidade vedes também meu intento: se um oculto movimento patente, e claro estais vendo, fico por fé conhecendo desse poder penetrante, que não obsta estar distante, Se estais, luz minha, sabendo.
E posto encubrais o rosto no acidental Sacramento, mui bem vedes meu intento, pois a tudo estais exposto: muda a língua, e fixo o gosto em vós, meu lince divino, já reconheço, que o fino deste arnor penetrareis, porque, Senhor, bem sabeis O mesmo, que eu imagino.