Portuguese poem
Meu amado Redentor
by Gregório de Matos (1636–1696)
Meu amado Redentor, Jesu Cristo soberano Divino Homem, Deus Humano, da terra, Deus criador: por seres, quem sois, Senhor, e porque muito vos quero, me pesa com rigor fero de vos haver ofendido, do que agora arrependido, meu Deus, o perdão espero.
Bem sei, meu Pai soberano, que na obstinação sobejo corri sem temor, nem pejo pelos caminhos do engano: bem sei também, que o meu dano muito vos tem agravado, porém venho confiado em vossa graça, e amor, que também sei, é maior, Senhor, do que meu pecado.
Bem não vos amo, confesso, várias juras cometi, missa inteira nunca ouvi, a meus Pais não obedeço: matar alguns apeteço, luxurioso pequei, bens do próximo furtei, falsos levantei às claras, desejei mulheres raras, cousas de outrem cobicei.
Para lavar culpas tantas, e ofensas, Senhor,tão feias são fortes de graça cheias essas chagas sacrossantas: sobre mim venham as santas correntes do vosso lado; para que fique lavado, e limpo nessas correntes, comunica-me as enchentes da graça, meu Deus amado.
Assim, meu Pai, há de ser, e proponho, meu Senhor, com vossa graça, e amor nunca mais vos ofender: prometo permanecer em vosso amor firmemente, para que mais nunca intente ofensas contra meu Deus, a quem os sentidos meus ofereço humildemente.
Humilhado desta sorte, meu Deus do meu coração, vos peço ansioso o perdão por vossa paixão, e morte: à minha alma em ânsia forte perdão vossas chagas dêem, e com o perdão também espero o prêmio dos Céus, não pelos méritos meus, mas do vosso sangue: amém.