Versos Portuguese Gregório de Matos Meu Deus, que será de mim?

Portuguese poem

Meu Deus, que será de mim?

by (1636–1696)

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Se o descuido do futuro, e a lembrança do presente é em mim tão continente, como do mundo murmuro? Será, porque não procuro temer do princípio o fim? Será, porque sigo assim cegamente o meu pecado? mas se me vir condenado, Meu Deus, que será de mim?

Se não segues meus enganos, e meus deleites não segues, temo, que nunca sossegues no florido dos teus anos: vê, como vivem ufanos os descuidados de si; canta, baila, folga, e ri, pois os que não se alegraram. dous infernos militaram. Bangüê, que será de ti?

Se para o céu me criastes, Meu Deus, à imagem vossa, como é possível, que possa fugir-vos, pois me buscastes: e se para mim tratastes o melhor remédio, e fim, eu como ingrato Caim deste bem tão esquecido tenho-vos tão ofendido: Meu Deus, que será de mim?

Todo o cantar alivia, e todo o folgar alegra toda a branca, parda e negra tem sua hora de folia: só tu na melancolia tens alívio? canta aqui, e torna a cantar ali, que desse modo o praticam, os que alegres pronosticam, Bangüê, que será de ti?

Eu para vós ofensor, vós para mim ofendido? eu já de vós esquecido, e vós de mim redentor? ai como sinto, Senhor, de tão mau princípio o fim: se não me valeis assim, como àquele, que na cruz feristes com vossa luz, Meu Deus, que será de mim?

Como assim na flor dos anos colhes o fruto amargoso? não vês, que todo o penoso é causa de muitos danos? deixa, deixa desenganos, segue os deleites, que aqui te ofereço: porque ali os mais, que cantando vão, dizem na triste canção, Bangüê que será de ti?

Quem vos ofendeu, Senhor? Uma criatura vossa? como é possível, que eu possa ofender meu Criador? triste de mim pecador, se a glória, que dais sem fim perdida num serafim se perder em mim também! Se eu perder tamanho bem, Meu Deus, que será de mim?

Se a tua culpa merece do teu Deus a esquivança a folga no mundo, e descansa, que o arrepender aborrece: se o pecado te entristece, como já em outros vi, te prometo desde aqui, que os mais da tua facção, e tu no inferno dirão, Bangüê, que será de ti?