Versos Portuguese Gregório de Matos Montes, eu venho outra vez

Portuguese poem

Montes, eu venho outra vez

by (1636–1696)

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Montes, eu venho outra vez aliviar-me convosco, perdoai, se com meus ais, vosso silêncio interrompo. Já sabeis, montes amigos, que amo, estimo, quero, adoro; mas de que serve cansar-vos, já sabeis, montes, que morro. À conta do que me lembram aqueles olhos irosos, que no meu sentir são raios, e nunca a meu ver são olhos. Lembra-me o rico cabelo, que na oficina dos ombros me reforma estas meninas de seus anéis preciosos. Lembra-me o rosto gentil, e ver eu no gentil rosto escondido um não sei quê, que me matou, não sei como. Lembra-me logo a muita alma, com que move o airoso corpo, e nem debalde em o vendo de ver tanta alma me assombro. Oh quem pudera dizer-vos outras mil partes, que escondo de recatado, podendo dizê-las de vanglorioso. Lembra-me Marfida enfim: mas que digo eu? que vos conto? porque se dela jamais me esqueço, como me acordo! Isto pois venho a dizer-vos, e a contar, montes, de novo, que de mil ânsias, que planto, um só favor não recolho. Limitar certos favores com fingidos pressupostos, se não vai de estorvo alheio, vai de desapego próprio. Retorceder as vontades, e esbulhar da posse os logros toca em arrependimento, se acaso não peca em ódio. Desigualar as ações, e alterar cad'hora os modos, se é por acinte, não gabo, se é por exame, não louvo. Desdenhar-se a meus carinhos, quem é afável com todos, isso é dizer-me na cara, que é aborrecido seu dono. Faltar nos prometimentos, ser pontual nos degostos, curta nas satisfações, larguíssima nos opróbrios: Executar tiranias, endurecer-se com rogos, prezar-se de isenções, enfim matar-me por gosto: Que há de ser montes amigos, senão haver feito eu próprio ingratíssima a Marfida a puro afeto amoroso. Que há de ser, se o ser constante em um fino é desabono, e assim eu mais me malquisto, quanto mais fino me mostro? Que há de ser, se quando as setas de Amor em Marfida aponto, ela as solta contra mim, e em meu próprio amor me corto? Faz-me mal, o que lhe quero, dá-me em saber, que a adoro, e é tarde para escondê-lo a seu juízo, e seus olhos. Quisera ingrata chamar-lhe, porém nem devo, nem ouso, que em dizer mal do que quero, desacredito meu gosto. Tende-me, montes, segredo, não saibam nestes contornos, quem é a ingrata Marfida, e o triste Pastor Ausônio.