Portuguese poem
Morreste, Ninfa bela
by Gregório de Matos (1636–1696)
Morreste, Ninfa bela, na florescente idade: nasceste para flor, como flor acabaste.
Viu-te a Alva no berço, a Véspora no jaspe, mimo foste da Aurora, a lástima da tarde.
O nácar, e os alvores da tua mocidade foram, se não mantilhas, mortalha a teus donaires.
Oh nunca flor nasceras, Se imitando-as tão frágil, no âmbar de tuas folhas te ungiste, e te enterraste.
Morreste, e logo Amor quebrou arco, e carcases; que muito se lhe faltas, que logo se desarme?
Ninguém há neste monte, ninguém naquele vale, o cortesão discreto, o pastor ignorante:
Que teu fim não lamente, dando aos quietos ares já fúnebres endechas, já trágicos romances.
O eco, que responde a qualquer voz do vale, já agora só repete meus suspiros constantes.
A árvore mais forte, que gemia aos combates do vento, que a meneia ou do raio, que a parte,
Hoje geme, hoje chora com lamento mais grave forças da tua estrela mais que a força dos ares.
Os Ciprestes já negam às aves hospedagem, porque gemendo tristes, andarn voando graves.
Tudo enfim se trocou, montes, penhas, e vales, o penedo insensível, o tronco vegetável.
Só eu constante, e firme choro o teu duro transe, o mesmo triste sernpre por toda a eternidade.
Ó alma generosa, a quem o Céu triunfante usurpou a meus olhos para ser lá deidade.
Aqui onde o Caípe já te erigiu altares por Deusa destes montes, e por flor destes vales:
Agrário o teu Pastor não te forma de jaspes sepulcro a tuas cinzas túmulo a teu cadáver.
Mas em lágrimas tristes, e suspiros constantes de um mar tira dois rios, de um rio faz dois mares.