Portuguese poem
LXXI: Salve Rainha
by Gregório de Matos (1636–1696)
LXXI
Humildes vos invocamos Com rogos enternecidos; E a esse amparo rendidos, Senhora, a vós suspiramos.
Se Deus nos perdôa, quando A nossa culpa é chorada; Todos, por ser perdoada, Estão gemendo e chorando.
Mas vós, por quem menos vale Lirio do valle, chorais? E o vosso pranto val’ mais Neste de lagrimas valle.
Já que tão piedosa sois, Senhora, com o vosso rogo Alcançae-nos perdão logo; Apressae-vos, eia pois.
Porque desde agora possa Triumphar qualquer de nós De inimigo tão atroz, Pedi, advogada nossa.
E em quanto n’estes abrolhos Do mundo postos estamos; De nós que o caminho erramos Não tireis os vossos olhos.
Sejam sempre piedosos Para nos favorecer; E para nos defender Sejam misericordiosos.
Pois remediar nos quereis De vossos olhos co’a guia, Gloriosa Virgem Maria, Sempre elles a nós volvei.
Livrae-nos de todo o erro, Para que assim consigamos Graça, em quanto aqui andamos E depois d'este desterro.
E pois vosso filho é a luz, E alumiar-nos quereis; Para que esta luz mostreis, Nos mostrae a Jesus.
E se como raio bruto O fructo vemos vedado,
N’outro paraiso dado Veremos o bento fructo.
Em nossos corações entre Seu amor; pois é razão, Seja meu do coração O que foi do vosso ventre.
De Jericó melhor rosa, Puro e candido jasmim, Quereis vós que seja assim, Oh! clemente! oh! piedosa!
Tenhamos nossa alegria, Esta doçura tenhamos; Pois que tanta em vós achamos, Oh doce Virgem Maria!
Se quem mais póde sois vós, Chegando a Deus a pedir; Para melhor vos ouvir, Pedi-lhe, rogae por nós.
Que então os favores seus Muito melhor seguramos; Pois que n’elles empenhamos A Sancta Madre de Deus.
Dae-nos fortaleza e tinos D’este mundo contra os sustos; Porque os bens sigamos justos, Para que sejamos dinos.
E se nos concedeis isto Que vos pede o nosso rogo, Mui dignos nos fazeis logo Ser das promessas de Christo.
Seja pois, divina luz; Melhor estrella, assim seja, Para que por nós se veja Vosso amparo. Amen Jesus.