Portuguese poem
Padre, a casa está abrasada
by Gregório de Matos (1636–1696)
Padre, a casa está abrasada, porque é mais danosa empresa pôr três bocas numa mesa, que trezentas numa espada: esta trindade sagrada, com que toda a case abafa a tomara ver já safa, porque à casa não convém trindade, que em si contém três Pessoas, e uma estafa.
Vós não podeis sem dar pena pôr à mesa três Pessoas, nem sustentar três coroas em cabeça tão pequena: se a fortuna vos condena, que vejais a casa rasa com gente, que tudo abrasa, não sofro, que desta vez vos venham coroas três fazer princípio de casa.
Se estamos na Epifania, e os três coroas são Magos, hão de fazer mil estragos no caju, na valancia: mágica é feitiçaria, e a terra é tão pouco esperta, e a gentinha tão incerta, que os três a vosso pesar não vos hão de oferta dar, e hão de mamar-vos a oferta.
O incenso, o ouro, a mirra que eles vos hão de deixar, é, que vos hão de mirrar, se vos não defende um irra: o Crasto por pouco espirra, porque é dado a valentão, e se lhe formos à mão no comer, e no engolir, aqui nos há de frigir como postas de cação.