Versos Portuguese Gregório de Matos Os dias se vão

Portuguese poem

Os dias se vão

by (1636–1696)

Listen in the reader

Os dias se vão, os tempos se esgotam, para todos trotam, só para mim não: tanta dilação quem há de curtir? O tempo a não vir, e eu por meu pesar sempre a esperar, o que tanto foge; casemo-nos hoje, que amanhã vem longe.

O tempo sagrado vem com tal vagar, que deve de andar manco, ou aleijado: eu com meu cuidado morto por vos ver, e o tempo a deter a dita, que espero, da qual eu não quero, que ele me despoje; casemo-nos hoje, que amanhã vem longe.

Por uma hora mera, que Píramo andara, e à Fonte chegara, onde Tisbe o espera, nunca acontecera colar-se de emboque no seu mesmo estoque, deixando uma ponta, onde a Moça tonta a morrer se arroje; casemo-nos hoje, que amanhã vem longe.

Por uma hora avara, por um breve instante, que Leandro amante no mar se arrojara, nunca se afogara, e Eros de tão alto não dera tal salto; porque quis o fado, que ela, e o afogado a praia os aloje: casemo-nos hoje, que amanhã vem longe.

Hoje poderei convosco casar, e hoje consumar, amanhã não sei: porque perderei a minha saúde, e em um ataúde me podem levar o corpo a enterrar, porque vos enoje: casemo-nos hoje, que amanhã vem longe.