Versos Portuguese Gregório de Matos Ontem, Nise, a prima noite

Portuguese poem

Ontem, Nise, a prima noite

by (1636–1696)

Listen in the reader

Ontem, Nise, a prima noite vi sobre o vosso telhado assentados em cabido cinco, ou seis formosos gatos. Estava a noite mui clara fazia um luar galhardo, e porque tudo vos diga, estava eu em vós cuidando O Presidente, ou Deão na Cumeeira sentado era um gato macilento barbirruço, e carichato. Os demais em boa ordem pela cumeeira abaixo lavandeiros de si mesmos lavavam punhos, e rabos. Tão profundo era o silêncio, que não se ouvia um miau, e o Deão o interrompeu dando um mio acatarrado. Tossiu, tossiu, e não pôde articular um miau, que de puro penitente traz sempre o peito cerrado. Eis que um gatinho reinol mui estítico, e mui magro relambido de feições, e de tono afalsetado: quis por primeiro falar, e falara em todo o caso, se outro gato casquiduro lhe não saíra aos embargos. Eu sou gato de um meirinho (disse) que pelos telhados vim fugindo a todo o trote do poder de um saibam-quantos. Com que venho a concluir, que servindo a tais dois amos, hei de falar por primeiro, porque sou gato dos gatos. Fale, disse o Presidente, pois lhe toca pro anciano; e ele tomando-lhe a vênia, foi o seu conto contando. Em casa deste Escrivão me criei com tal regalo, que os demais gatos da casa eram comigo uns bichanos. Mas cresci, e aborreci, porque se cumpra o adágio, que o oficial do mesmo ofício é inimigo declaraclo. Foi me tomando tal ódio, porque foi vendo, e notando, que era capaz eu de dar-lhe até no ofício um gataço Topou me em uns entreforros, e tirando-me porraços, eu lhe miava os narizes, quando ele me enchia os quartos Fugi, como tenho dito, e me acolhi ao sagrado de uma vara de justiça, que é valhacouto de gatos. Sai meu amo aos prendimentos, e eu fico em casa encerrado por caçador de balcões, onde jejuo o trespasso. Porque em casa de um meirinho nas suas arcas, e armários é quaresma toda a vida, e têmporas todo o ano. Não posso comer ratinhos, porque cuido, e não me engano que de meu amo são todos ou parentes, ou paisanos. Porque os ratinhos do Douro são grandíssimos velhacos: em Portugal são ratinhos, e cá no Brasil são gatos. Eu sou gato virtuoso. que a puro jejum sou magro, não como, por não ter quê, não furto, por não ter quando E como sobra isto hoje, para me terem por Santo, venho pedir que me ponham no Calendário dos gatos. Acabada esta parlenda mui ético do espinhaço sobre a muleta das pernas se levantou outro gato: Dizendo: há anos, que sirvo na casa de um Boticário, que a récipe de pancadas me tem os bofes purgado. Queixa-se, que lhe comi um boião de ungüento branco, e bebi-lhe a mesma noite um canjirão de ruibarbo. Diz bem, porque assim passou; mas eu fiquei tão passado como de tal solutivo dirá qualquer mata-sanos. Fiquei de humores exangue, tão escorrido, e exausto, que não sou gato de humor, porque nem bom, nem mau gasto. Suplico ao senhor Cabido, que de um homem tão malvado me vingue com ter saúde, por não gastar os emplastos. Apenas este acabou, quando se ergueu outro gato, e entoando o jube domine disse humilde, e mesurado: Meu amo é um bom Alfaiate gerado sobre um telhado na maior força do inverno, alcoviteiro dos gatos. É pardo rajado em preto, ou preto embutido em pardo, malhado, ou já malhadiço do tempo, em que fora escravo. Tão caçador das ourelas, tão meador de retalhos, que com onças de retrós brinca qual gato com ratos. E porque eu com dois fios joguei o sapateado, houve de haver por tão pouco uma de todos os diabos. Estrugiu-me a puros gritos, e plantou-me no pedrado; ele pelo cabo é cão, e eu fiquei gato por cabo. Que de verdades dissera, a estar menos indignado! mas para falar de um cão é mui suspeitoso um gato. Pelo menos quando eu corto, nunca dobro a tela em quatro, por dar um colete ao demo, e outro a mim pelo trabalho. Nem menos peço dinheiro para retrós e o não gasto, porque o gavetão do cisco me dá o retrós necessário. Não cirzo côvado, e meio por dar um colete ao diabo, nem vendo de tela fina retalhinhos de três palmos. Tudo enfim se há de saber no universal cadafalso, que no tribunal de Deus não se estilam secretários Requeiro a vossas mercês; que me ponham com outro amo, porque com este hei de estar sempre como cão com gato. À vista deste Alfaiate disse o Cabido espantado. somos nós gatos mirins, que inda agora engatinhamos. O gato tome outro amo em qualquer convento honrado. seja Fundador Barbônio, ou Sacristão-mor do Carmo. A propósito do que se foi erguendo outro gato. e amortalhado de mãos armou os lombos em arco: E dizendo o jube domine se pôs em terra prostrado: e eu disse logo: me matem, se não é dos Franciscanos. Sou gato de refeitório, disse, há três ou quatro anos, pajem do refeitoreiro, do despenseiro criado. Fui Custódio da cozinha, e dei mal conta do cargo, porque sisando rações, fui guardião dos traçalhos. Eu era por outro tempo mui gordo, e mui anafado, porque os da esmola então vinham despejar-me em casa os sacos. Mas hoje, que já da rua vêm cos bolsos despejados, veio a ser o refeitório uma Tebaida de gatos. Não pode o pão das esmolas manter tantos Remendados, que em lhe manter as amigas (sendo infinitas) faz arto. Dei com isto entisicar-me, e esburgar-me do espinhaço, não tanto já de faminto, quanto de escandalizado. Não posso viver entre homens, que se remendam seus panos, é mais por nos enganar, que porque lhes dure o ano. E hoje, que na casa nova gastam tantos mil cruzados, são gatos de maior dura, pois de pedra, e cal são gatos. Palavras não eram ditas, quando zunindo, e silvando sentiram pelas orelhas um chuveiro de bastardos. E logo atrás disso um tiro de um bacamarte atacado, que disparou de um quintal um malfazejo soldado Descompôs-se a audiência, e cada qual por seu cabo pela campanha dos ares foram de telha em telhado. E depois que légua e meia tinha cada qual andado, parando, olharam atrás atônitos e assustados. E vendo-se desunidos, confusos, desarranchados, usaram de contra-senha miau aqui, ali, miau. Mas depois, que se juntaram, disse uma gato castelhano, cada qual a su cabana, que hoje de boa escapamos, Chuviscou naquele instante, e safaram-se de uma salto, porque sempre da água fria tem medo o gato escaldado.