Portuguese poem
Innocencia
by João de Deus
Encolhe as azas, que te abrazas, louca! O fogo mata a quem o gera, attende; Foge e, se a vida te aborrece, estende Um braço aos anjos, que a distancia é pouca.
Porque uma nuvem, onda transitoria Do mar immenso, vem pousar na serra, Não fica a nuvem pertencendo á terra: Tu és o anjo que desceu da gloria.
Estranhas forças para ti me attrahem; E ás vezes cedo, tua cinta enleio; Teus olhos beijo; mas, contemplo o seio, Tua alma dorme, e os meus braços cahem...
Desfallecidos, flôr celestial! Como ante um berço cahe a foice erguida, Se ha n'elle mais do que uma simples vida, Se ha innocencia que mil vidas val.
Oh! não: teus labios o meu fel não provem: Outros os lirios d'essa face esmaguem; D'outros mãos impias teu sorriso apaguem, Em quanto os labios tuas graças louvem.
Já no meu berço d'innocencia pude Pesar as joias, que hoje em vão te invejo: Provei os favos de illibado pejo, Sei o que perde quem o vicio illude.
Alcantil ingreme, onde o raio é certo, Contém mais seiva, que inda o musgo cria: Quanto de fertil em nossa alma havia Só deixa o ermo da saudade aberto.
Cahir no abysmo de intimos pezares D'essas alturas onde mal te vejo, O ponto estava derreter n'um beijo O fio de oiro que te manda aos ares.
N'esses dois cofres, n'esse collo aonde Tantas riquezas enterrei ciumento (E que alta noite vela o pensamento Pelo crystal que o coração te esconde)
Em oiro em barra, fina prata e quanto Coalha o vasto e opulento Oriente, Fôra em ruinas encontrar sómente Carvão, se um dia te quebrasse o encanto.
Casta innocencia, de Deus filha e bella Entre as mais bellas! virginal aroma! Rosa ineffavel, que, se á luz assoma, Haste e raiz apodreceu com ella!
Sol, que uma vez em nossa vida passas! Flôr, que uma e neutra, como Deus, não gera; Que se abre morre, mas sem prole, inteira Com todo o côro das virgineas graças:
Ao vêr-te, embora meu olhar te envia O impio incenso de Nadab, ajoelho... Rosa da face e, não só rosa, espelho Da face occulta de quem espalha o dia!
Se por teus membros orvalhadas flôres Prodigas mãos da formosura entornam, Flôres mais bellas o teu seio adornam... Vós, lirios d'alma, virginaes amores!
O céo me encanta, como encanta o inferno. Mysterio... espaço... mente exploradora! Morre nas mãos o que a nossa alma adora --Vago, impalpavel, infinito, eterno!
Evora.
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A Escriptura Sagrada Lá diz que uma mulher má Não ha fera, não ha nada Peor no mundo: e não ha.
Uma lá da minha aldeia, Que era muito impertinente, Muito má (e muito feia) Morre um dia de repente. Morreu; desgraçadamente Mais tarde do que devia; Mas em summa toda a gente Teve a maior alegria.
Passados annos (é boa!) Foi-lhe preciso ao coveiro Abrir a cova, e achou-a Ainda de corpo inteiro, Ainda rosas na face, Ainda signaes de vida... Milagre! coisa sabida; Pois mais fresca que uma alface Ha tanto tempo enterrada, Devendo estar reduzida A pó, terra, cinza e nada...
Vem dar parte; e corre a vêl-a O povo atraz do prior; E passam logo a trazel-a Em cima do seu andor E a pol-a n'uma capella De grande veneração; (Elles ás costas com ella, E elle a cantar canto-chão;) Mas seja lá o que fôr, O que é certo e mais que certo É que santa como aquella E nem de mais devoção, Não ha por alli tão perto.
E dizem que não ha santos Como nos tempos passados! E cá opinião minha Que muitos (quantos e quantos!) Que ahi morrem desprezados, Se não são canonisados É que está cheia a Folhinha.
Messines.
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