Versos Portuguese João de Deus Remoinho

Portuguese poem

Remoinho

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Olha como embrulhado Que está ainda o céo E o chão, como ensopado Da agua que choveu...

Foi um diluvio d'agua; E o furacão, que fez, Emilia! até dá mágoa Tantos estragos: vês?

Esta infeliz víuva, Foi-lhe o telhado ao ar; Depois, já nem da chuva Tinha onde se abrigar.

De mais a mais sósinha, Sem ter nenhum dos seus Aqui ao pé; ceguinha... Bemdito seja Deus!

Além n'aquelle serro Parece que raspou Com uma pá de ferro A terra que encontrou.

Nem um só pé de trigo És lá capaz de vêr. Já eu disse commigo: Como póde isto ser?

As arvores arranca O vento muito bem; Serve-lhe de alavanca A rama que ellas tem.

Vem de lá elle e, topa N'uma arvore, o que faz? Enrola-se na copa E, tronco e tudo, zás!

Que as folhas não são nada, Uma por uma, não; Mas já uma pernada... Tão poucas ellas são?

Vê lá se o teu cabello É para comparar; Mas, possa alguem sustel-o, Levanta-te no ar.

Aqui um loureirinho, Que era o que havia só, Encontra-o no caminho, Ia-o fazendo em pó.

D'aqui passa, á maneira Assim d'um caracol, Áquella farrobeira Põe-lhe a raiz ao sol.

Aquelle enorme tronco Quiz resistir, depois, Ouviu-se um grande ronco, Quando o eu vejo em dois.

Andava a rama toda, Emilia! assim, vês tu? Á roda, á roda, á roda, Eis senão quando, rhuh!

Foi quando veio o outro Urrando como um boi, Oh que horroroso encontro! Então é que ella foi.

Vês uma cobra enorme Á calma, quando está Grande calor, conforme As tenho visto já?

Que não tem ar avonde, Falta-lhe já o ar, Quer sangue ou agua onde Se possa refrescar;

Anceia-se, sacode O corpo todo a vêr Se vôa, mas não póde; Voar não póde ser;

E como não supporta Já o calor do chão, Ao vêr-se quasi morta De raiva e afflicção,

Apenas finca a ponta Do rabo em terra, e sái; E faça-se de conta Que é a voar que vai

N'aquellas roscas todas Que, olhando-se-lhes bem, São outras tantas rodas Em cima d'onde vem;

N'aquelle parafuso --Aquelle rodopio, Á roda como um fuso Suspenso pelo fio;

Com a cabeça chata, Aquelle olhar feroz, Aquelle olhar que mata Sempre de fito em nós?

Assim d'essa maneira É que elle vinha, o tal; Salta-lhe á dianteira Este de força igual;

E assim que se avistaram, Não sei o que lhes dá; Ficam suspensos, param, Como com medo já;

Aquelles sorvedouros, Em vez de remoinhar, Parecem-se dois touros Jogando a terra ao ar;

Ouvia-se a oliveira Zunir no ar, então, D'um para o outro inteira, Nem bala de canhão;

E assim se vão chegando Cada vez mais, até Que eu ólho, eis senão quando Vejo... mas vejo o que?

. . . . . . . . . . . . . . .

Messines.

* * * * *

AMORES, AMORES...

Não sou eu tão tola Que cáia em casar; Mulher não é rola, Que tenha um só par: Eu tenho um moreno, Tenho um de outra côr, Tenho um mais pequeno, Tenho outro maior.

Que mal faz um beijo, Se apenas o dou Desfaz-se-me o pejo, E o gosto ficou?

Um d'elles por graça Deu-me um, e depois, Gostei da chalaça, Paguei-lhe com dois.

Abraços, abraços Que mal nos farão? Se Deus me deu braços, Foi essa a razão. Um dia que o alto Me vinha abraçar, Fiquei-lhe d'um salto Suspensa no ar.

Amores, amores. Deixál-os dizer; Se Deus me deu flôres, Foi para as colher. Eu tenho um moreno, Tenho um de outra côr, Tenho um mais pequeno, Tenho outro maior.

* * * * *