Portuguese poem
Presentimento
by João de Deus
Emilia! não vês a lua Como vacilla e fluctua, Ora avança, ora recúa, E não ha passar d'alli? Tu és a imagem d'ella; És tão sympathica e bella, Meiga e timida, que ao vêl-a Me lembra sempre de ti!
Tu és o botão de rosa Que abraçado á mãi formosa Só folga, só vive e goza N'aquella triste união; Treme até de ouvir a aragem Passar por entre a folhagem: Emilia! tu és a imagem Do mais timido botão.
Mas embora: o tempo gira. Um dia o botão, que aspira O ar da manhã... suspira E levanta o collo ao céo: Vê vir raiando a aurora, Abre o seio á luz que adora, Correm-lhe as lagrimas, chora... Chora o tempo que perdeu!
Porque elle, Emilia! não teme Que a luz da aurora o queime; Elle suspira, elle geme Por vêr a luz que o creou. Nem tambem a lua pára: Se algumas vezes repara N'uma nuvem menos clara, É um momento e... passou.
Não ha existencia alguma Que não tenha amor; nenhuma; Porque o amor é, em summa, Essencia de todo o sêr. Ha sempre quem nos attráia. Mil vezes que a onda cáia, Ha uma rocha, uma praia Aonde a onda vai ter.
Tu andas já presentida D'essa voz que te convida A encetar n'esta vida Ai! uma vida melhor... E em breve desenganada D'essa existencia isolada, Darás n'alma franca entrada A sentimentos de amor!
Silves.
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