Portuguese poem
Não!
by João de Deus
Tenho-te muito amor, E amas-me muito, creio; Mas, ouve-me, receio Tornar-te desgraçada. O homem, minha amada! Não perde nada, goza; Mas a mulher é rosa... Sim, a mulher é flôr!
Ora e, a flôr, vê tu No que ella se resume... Faltando-lhe o perfume, Que é a essencia d'ella, A mais viçosa e bella Vê-a a gente e... basta. Sê sempre, sempre, casta! Terás... quanto possuo!
Terás, em quanto a mim Me alumiar teu rosto, Uma alma toda gosto, Enlevo, riso, encanto! Depois, terás meu pranto Nas praias solitarias... Ondas tumultuarias De lagrimas sem fim!
Á noite, que o pezar Me arrebatar de casa, Irei na campa rasa Que resguardar teus ossos, Ah! recordando os nossos Tão venturosos dias, Fazer-te as cinzas frias Ainda palpitar!
Mil beijos, dôce bem! Darei no pó sagrado, Em que se houver tornado Um corpo tão galante! Com pena, minha amante, De me não ter a morte Cahido a mim em sorte... Cahido a mim tambem!
Já exhalando os ais Na lugubre morada Te vejo a sombra amada Sahir da sepultura... A tua imagem pura, Fiel, mas illusoria... Gravada na memoria Em traços tão leaes!
Então, se ainda alli Teus vaporosos braços, Poderem dar abraços Como dão hoje em dia, Peço-te, sombra fria! No mais intimo d'elles Que a mim tambem me geles, E fique ao pé de ti!
Mas, ai! meu coração! Tu porque assim te affliges, E tremula diriges A vista ao céo piedoso!... O quadro é horroroso, A scena triste e feia, Basta encerrar a idéa D'uma separação...
Mas, ouve, existe Deus. Ora e, se Deus existe, Tão horroroso e triste Que pódes temer? Nada! Desfruta descançada O extasi, o enleio Em que eu já saboreio O jubilo dos céos!
Deixa-me n'esse olhar Vêr como a lua assoma... Sim, deixa no aroma, Que a tua bocca exhala, Vêr como a rosa falla Quando a aurora a inspira... Vêr como a flôr suspira Por vêr o sol raiar!
A morte para amor É exito sublime. A morte para o crime, É que é amarga e feia. A morte não receia O verdadeiro amante; Por ella a cada instante Implora elle o Senhor.
É juntos, tu verás, Que nós expiraremos! Sim, juntos, que os extremos Olhares cambiando, Iremos despegando, Do involucro terreno, O espirito sereno Como a eterna paz!
Vê, só porque suppuz Chegado esse momento, Já esse olhar mais lento... As vistas mais serenas... Bruxuleando apenas, Em languido desejo, Symphatico lampejo D'uma ineffavel luz!
Ha, n'este triste valle De lagrimas, a imagem De dois n'essa passagem Para a eternidade... A nevoa, a anciedade, O jubilo que mata, Dão uma idéa exacta Do transito fatal.
Mas essa imagem, flôr! É tão fiel, tão viva Que á sua luz activa Se cresta a flôr mimosa! E nem o homem goza: Se goza é um momento! Depois... o desalento! Depois... o desamor!
Portimão.
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