Portuguese poem
N'Um Album
by João de Deus
Pedindo-se ao author uma poesia
Não me admira a mim que o sol, monarcha De indisputavel throno, e throno eterno Em céo e terra e mar; Que em seu imperio o mundo inteiro abarca Abaixe á pobre flôr seu dôce e terno, Mavioso olhar.
Não me admira a mim que a crystallina, Tão pura, onda do mar, que espelha a face Do astro creador, Que essas asperas rochas cava e mina, Á praia toda languida se abrace E toda amor!
Mas sendo vós um sêr mais precioso Do que onda e sol--um anjo de poesia Inspirada e que inspira; Que ás minhas mãos, das vossas, tão mimoso, Delicado penhor descesse um dia É que me admira.
Quizera nos meus cofres de poeta Ter as riquezas todas do Oriente, E com mãos liberaes Expulsar esta duvida que inquieta Um grato coração que apenas sente E... nada mais!
De limpido diamante e fio de oiro, Quizera-vos tecer collar que á aurora Vencesse em brilho e côr; Mas o poeta, o unico thesoiro Que tem, ah! são as lagrimas que chora E o seu amor.
Eu vol-o dou. E lá do espaço immenso Se amada estrella olhar piedoso envia A quem da terra a adora; Se o sol aceita á flôr humilde incenso; Ha no amor tambem muita poesia... Minha senhora!
Evora.
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Beijo na face Pede-se e dá-se: Dá? Que custa um beijo? Não tenha pejo: Vá!
Um beijo é culpa Que se desculpa: Dá? A borboleta Beija a violeta: Vá!
Um beijo é graça Que a mais não passa: Dá? Teme que a tente? É innocente... Vá!
Guardo segredo, Não tenha medo... Vê? Dê-me um beijinho, Dê de mansinho, Dê!
Como elle é dôce! Como elle trouxe, Flôr! Paz a meu seio; Saciar-me veio, Amor!
Saciar-me? louco... Um é tão pouco, Flôr! Deixa, concede Que eu mate a sêde, Amor!
Talvez te leve O vento em breve, Flôr! A vida foge. A vida é hoje, Amor!
Guardo segredo; Não tenhas medo Pois! Um mais na face E a mais não passe! Dois...
Oh! dois? piedade! Coisas tão boas... Vês? Quantas pessoas Tem a Trindade? Tres!
Tres é a conta Certinha e justa... Vês? E o que te custa? Não sejas tonta! Tres!
Tres, sim. Não cuides Que te desgraças: Vês? Tres são as Graças, Tres as Virtudes, Tres.
As folhas santas Que o lirio fecham, Vês? E que o não deixam Manchar, são... quantas? Tres!...
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Thuribulo suspenso inda fluctuo, Em quanto a alma em incenso restituo; Mas, quando como fumo que se esvai, Minha alma! vás teu rumo... sobe e vai. Vai d'estas densas trevas, d'esta cruz, Levar-lhe... quanto levas, pobre luz! Amor, que em mim não cabe, vai depôr Em Deus, e Deus bem sabe se era amor; Se d'outra flôr o calix mais libei Por esses quantos valles divaguei; Se um nome em igneo traço li no céo, Nas ondas e no espaço, mais que o seu... Deus sabe se eu dos montes vi tambem Nos vastos horisontes mais alguem; Nos tristes e risonhos dias meus, Se alguem vi mais em sonhos, que ella e Deus. Porém quem é que apanha o aereo véo Da nuvem da montanha, se é do céo? Se á terra a nuvem desce, quando vai Tocar-se-lhe, desfez-se como um ai.
Coimbra.
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Luz d'intima influencia, Oh fugitiva luz! Luz cuja eterna ausencia É minha eterna cruz.
Podessem-te, ainda antes Do meu extremo adeus, Meus olhos fluctuantes Vêr lampejar nos céos.
Se ainda n'esse espaço, Tão longe onde tu vás, Visse um reflexo baço Da pura luz que dás;
Tornaram-se-me estrellas As lagrimas de dôr; E lagrimas são ellas... Sim, lagrimas d'amor!
Vê n'esse espaço immenso Os astros como estão Bem como eu estou, suspenso Por intima attracção.
Porque ha quem os attráia; É essa eterna paz Que a mim de praia em praia A suspirar me traz.
Converte-me este inferno Em azulado céo, Ou quebra o laço eterno Que a tua luz me deu;
Ou antes muda em espuma De nunca estavel mar Esta alma que alma alguma Póde exceder em amar.
Em cinza, em terra, em nada, Meu sêr converte, ó luz, Mas sempre, sempre amada, Deliciosa cruz!
Portimão.
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