Portuguese poem
Malmequer
by João de Deus
Talvez em eu morrendo a teus ouvidos Chegue a noticia, que hoje os factos vôam, E oiças então os intimos gemidos Que exhalo e te não sôam.
Talvez então, embora me não ames, Com esses olhos humidos de fito Na minha sombra: «Desgraçado! exclames; Amava-me, acredito.
«Levou a vida amando-me: que prova Me podia alguem dar de mais ternura, Ingrata como eu era! Abri-lhe a cova, Cavei-lhe a sepultura!
«Hei-de regal-a de meu pranto. Julgo Do meu dever... agradecer-lhe agora! Purificar-me em lagrimas! O vulgo Que me censure embora.
«Hei-de ir dispôr um pé de saudade Na terra onde elle descançou da lida; Mostrar-lhe amor, mostrar-lhe piedade, Que não mostrei em vida!»
Se fôres, meu amor! uma perpetua, E uma saudade ser-me-hia dôce! Mas só perpetua ou saudade, aceito-a, E um malmequer que fosse.
Lisboa.
* * * * *