Portuguese poem
Paixão
by João de Deus
Suppõe que d'uma praia, rocha ou monte, Com essa vista embaciada e turva Que dá aos olhos entranhavel dôr; Tinhas podido vêr transpôr a curva, Pouco a pouco, do liquido horisonte, A saudosa barca, que levasse Aquelle, a quem primeiro uniste a face E o teu primeiro amor!
Depois, que toda mágoa e saudade, Da mesma rocha ou alcantil deserto, Olhando ávidamente para o mar; Vias na solitaria immensidade, Vagas ficções d'um pensamento incerto, Surgir das ondas, desfazer-se em espuma; Não alvejando, nunca, vela alguma E, sempre, a suspirar.
Até que á luz d'uma intuição sublime D'alma arrancavas o gemido extremo De saudade, desespero e dôr!... Pois é assim que eu soffro, assim que eu gemo! Que nuvem negra o coração me opprime; Nuvem de mágoa, nuvem de ciume, Em te não vendo á hora do costume, Meu anjo e meu amor!
Lisboa.
* * * * *