Portuguese poem
Parisina
I
Decorrido que seja um rapido momento, Verá junto de si o companheiro amado. O instante deslisou. Em agil movimento, Cai-lhe, offegante, aos pés o amante ajoelhado.
Confirmando o que diz, tudo explica e descobre E em minucias se espraia a mercenaria turba; E d՚Azo ao coração e ouvidos nada, em breve, Resta ouvir e sentir do crime, que o conturba.
E elle, — seu cavalleiro — o amante, que escolhera; Que manchára, a seu lado, o leito paternal; Que, de lança enristada, em prol d՚ella correra, Si nos olhos lhe lesse, apenas, um signal;
Não vê que outros grilhões os braços lhe encadeiam ? Não enxerga, sulcando aquelle rosto lindo, Lagrimas de afflicção, que os olhos lhe roxeiam, Menos que a propria dôr, do amante a dõr carpindo?!
Das palpebras não vê a errar-lhe no alabastro, Que sempre a beijos fóra um fervido incentivo, Violaceo matiz das veias — vivo rastro. De martyrio cruel, de dôr sem lenitivo,
Palpebras, que em livor agoza lampejando, Em vez de serem veus dos olhos, que o cançaço Immoveis já tornou, estão n՚elles pesando, E se innundam de pranto, ao fim de curto espaço?!
Nem só a espóras d՚ouro imprime lustre e gloria A de origem mais nobre, antiga, illustre grey. C՚o as minhas, quanta vez, gritando « Éste e Victoria » ! De generaes avante o meu corcel lancei!
Não me excuso. Sou teu. Nem peço horas, ou dias, Que me alonguem, um pouco, a terreal viagem. Taes horas, aliás, por minhas cinzas frias Passarão, sem alguem fazer-lhes a contagem.
Era bem de prever não fosse duradouro Meu delirio de amor. Foi sembra fugitiva! Bem que o berço me inquine original desdouro, E me deturpe a vida a mancha primitiva,
Posto que o teu desdem fidalgo recusasse Acolhimento dar á coisa vil, qual sou, As paternas feições eu tenho em minha face E por tua alma, em tudo, a minha se moldou.
Animo sem temor me coube, por herança, De ti... Que estremeção te abala, desta sorte! Proveio-me de ti, na sua mór pujança, Um coração ardente, um braço agil e forte.
Infundiste-me a vida e tudo, que podia Tornar-me outro tu mesmo, um Azo repetido. Teu criminoso amor no filho te punia, Fazendo-o, a mais não ser, comtigo parecido.
Nada em meu coração de bastardia existe; Minh՚alma, como a tua, odeia todo o jugo. A vida, dom fugaz, que tu me transmittiste, E que vás retomar, por mão de teu verdugo,
Tem p՚ra mim o valor, que á tua davas, quando Da refrega no ardor, na fronte os capacetes, Pelo sangrento chão cadavetes calcando. Faziamos voar os ardegos ginetes.
Todo o passado é nada. As horas transitorias. Que tenho de porvir, serão como o passado. Peza-me, ao me rever no quadro dessas glorias. Que não houvesse, então, meus dias terminado.
De minha pobre mai causaste a desventura; Roubaste-me a mulher, que me era destinada. E՚s meu pai. Nem de injusta acoimo a pena dura; Seja embora por ti ao filho decretada.
O fim de minha vida é como seu começo; No peccado nasci; na infamia vou morrer. Impões-me este castigo; eu só não o mereço; A pena de nós dois estou, óra, a soffrer.
Vós, austeros mortaes, de alvitre escrupuloso, Que da moral do mundo os dictadores sois, Podeis, embora, o filho achar mais criminoso, Que o pai. Só cabe a Deus julgar entre nós dois. »
XIV
Amarga hora suprema! A՚ na vinda, o susto Invade o mais valente. Execra-se o flagicio; A justiça, que o pune, exerce um acto justo; Mas quem não estremece á ideia do supplicio ?!
E d՚onde procedeu? Foi d՚uma gelosia Da régia senhoril. Os olhos convergiram Para o sitio indicado. Alli nada se via. Escutatam em vão, pois nada mais ouviram.
Era voz de mulhet. De humana creatura Qual mais desesperada? Aquelles que o escutaram, Cheios de compaixão por tanta desventura, Que fosse aquelle grito o extremo desejaram.