Portuguese poem
Poema
I
O tartaro animal, felpudo, vigoroso, Vencia em rapidez um furacão do outomno. A um aceno acudia, attento e pressuroso E orelhas aprumava, ouvindo a voz do dono.
Toldasse negra noite o azul do firmamento, Fosse entre muitos mil occulto o cavalleiro, O instincto lh՚o mostrára; ir-lhe-ia em seguimento, Qual vai da mãi no encalço a cria do cordeiro.
Precedeu tal mudança o tempo, em que ao dominio Da velhice quebrei. Podeis dar attestado Que em forças e valor em mim não ha declinio; Que a lucidez da mente hei sempre conservado.
Nem d՚outro modo, Sire, eu fora em vossa tropa Um chefe, e nem me achára aqui, neste momento, Velha historia a contar de um robre sob a copa, Em que pesa o docel de umbroso firmamento.
Thereza... Não lhe pinto as formas e a figura. Asiaticos tinha os olhos, como os tem Cruzada geração gentil, que da mistura Do sangue polonez e musulmão provém.
Olhos, que tintos são das trevas no negrume; Que estampam d՚este ceu a carregada face, Das pupillas vibrando embaciado lume, Qual da lua o clarão, que, á meia noite, nasce;
Grandes, sempre de luz nadando em plena enchente, Como que d՚essa luz se fundem no fulgor; Metade languidez, metade chamma ardente, Sendo, porém, na essencia, um puro e casto amor,
Revestem a expressão serena do que expira Pela fé, a fitar, extasiado, o empyreo, Qual si fosse volupia o fogo atróz da pyra E ante-gosto celeste a fragoa do martyrio.
Semelhava-lhe a fronte um lago em claro estio, Onde inflammado o sol os raios reverbéra, Onde, timida a vaga abafa o murmurio, Onde vem espelhar-se a tinta azul da esphera.
A fronte, os labios seus... Que mais dizer? Amei-a E inda amo essa mulher. E todos os que são Como eu, si amor lhes lança aos pulsos a cadeia, Amam com energia e férvida paixão;
Amam, té no furor. Em seus ultimos annos, Persegue-os, vaga, inane, a sombra do passado. Tal Mazeppa hade ser, emquanto entre os humanos, Fôr dos vivos no ról seu nome contemplado.
Raivoso estava o conde, eu d՚armas desprovido. Estivesse, porém, forrado de armadura, Contra essa gente hostil, em numero crescido, Não pudera luctar naquella conjunctura.
Perto o solar ficava, a povoação distante, Eu sem auxilio algum contar. Amanhecia. Acreditei chegado o meu supremo instante, E que a luz d՚outro sol não mais brilhar veria.
Rezei á Virgem Mãi e a uns santos... Quaes?... Que importa!? E com resignação dispuz-me para a morte. Do castello feudal eu fui levado á porta. Nunca mais vi Thereza e nem lhe soube a sorte.
Para seu mau humor justificar, de sobra, Bastava ao Palatino a recebida injuria. Uma ideia, no entanto, a cólera llie dobra... — A eiva em seus brazões de bastardia espuria.
Repugnava-lhe crêr que em seu antigo escudo Ousasse alguem pôr quebra e deturpal-o assim. Isto em quem aspirava á primazia em tudo; Que impor-se a todos quer, e muito mais a mim.
Um pagem! Santo Deus!... Até parece incrivel! Si um rei fosse, podia o esposo conformar-se... Não consegui pintar o seu furor terrivel... Mas os effeitos d՚elle em mim vão demonstrar-se.
XI
Era d՚esses que, sendo a plantas conculcados, Qual serpente, alça o collo e investe c՚o aggressor. Por largas horas preso em laços intrincados, Não era de extranhar vergasse á tanta dôr.
A terra aos olhos meus tornára-se invisivel. Vi de nuvens no céu veloz revoluteio. Pareceu-me ir á terra. A queda era impossivel, Que me prendiam nós do mais cerrado enleio.
Tinha o cerebro em fogo a percutir-me o craneo, Compresso o coração num torno de agonia. Um momento pulsou; parando, subitaneo. O céu — immensa roda — em cima se movia.
Quaes ebrios — ante mim as arvores nutaram; Tenue luz vislumbrou-me aos olhos, de relance. Nada mais vi, depois. Por ancias taes passaram Os que tocam da vida ao derradeiro transe.
No tumulto infernal d՚aquella correria, Em que a treva, ou mais leve ou densa, me affrontava, Tentára recobrar do animo a energia; E minha posição o esforço me frustrava.
Eu era semelhante ao triste, que naufraga, E, agarrado a um pranchão, do mar a furia arrosta; Agora submergido, agora á flor da vaga, A cujo impulso vai em direcção da costa.
Deslumbrantes clarões, que o cerebro nos sulcam, Que, mesmo olhos cerrando, os vê a mente esperta, E incipiente febre em quem os nota inculcam: — Tal a imagem, então, de minha vida incerta —.
Esse estado passou. Foi breve o soffrimento. Veio, após, turbação, peior que a propria dôr. Receio de sentil-a igual nesse momento, Em que o marco da vida eu tenha de transpôr.
Antes de ao pó volver é força (ao que supponho) Que ao mortal accommetta angustia, inda mais forte. Que importa! Muita vez expuz, qual inda exponho, Com arrojo, a cabeça á quasi certa morte.
O rubor do astro-rei, só tarde, deu desmaio Das estrellas no carro á luz, que d՚ellas flue. Seródlo o sol vibrou em toda a força o raio Da luz—dote do ceu—que o rei da luz possue.
E tendo haurido, á flux, delicias alternando, Tudo, que o mundo tem de bello e seductor, Nada mais esperando e nada lastimando, Vivem, sem apprehensões de duvida, ou terror,
(Salvo quanto ao porvir, que os homens consideram Como dos nervos seus o estado lhes permitte), Em quanto, do infortunio as victimas esperam Que os soffrimentos seus attinjam o limite.
Véus, que empanar-lhes vem a vista desvairada De que enxerguem na morte um bom amigo impedem; Julgam que lhes será por ella arrebatada A sua recompensa—o pomo de seu Eden.
O dia de amanhã houvera dado tanto! Dia longo, em que a luz, serena, irradiára. Não haveria n՚elle anathema, nem pranto, E da angustia passada, em pleno, os compensára.
Inicio elle será de longa série de annos, Divisada atravéz de lagrimas, agora; Exercer poderão direitos soberanos... E só ha de fulgir num tumulo essa aurora !?...
Quando te houver vingado a rapida corrente, A salvo e unido aos meus... Boa noite, camaradas!
E o hetman preparou do robre sob a rama, Folhas verdes do bosque e nellas se estendia. Não achou desusada ou dura aquella cama, Pois elle em qualquer sitio, e hora adormecia.
E si, acaso, ao leitor fôr causa de extranheza De Carlos a mudez, bem franco lhe direi Que não soffreu Mazeppa a minima sorpreza, Pois que, de ha muito, ouvia o resonar do rei.