Portuguese poem
Madeiro altivo vem cingrando ao longe
by José da Silva Maia Ferreira (1827–1881)
Madeiro altivo vem cingrando ao longe Per entre as agoas mansas d’esmeraldas, Com pavilhão das Quinas Luzitanas, Que tremulando pelo meigo sôpro De suave brisa, — ufano, — as altas grimpas D’alcantis primorosos, — saúda altivo! E a instantes — repetidos échos sôam Reflectindo nas agoas o estampido D’alguns canhões que trôam! E morre pouco e pouco o som nas vagas, Annuncio lisongeiro, que alto préga A vinda — a excelsa vinda desejada Do da Monarca o meritorio Enviado, — Do digno Regedor d’Africa adusta!
Exulta de Benguella, ó povo, exulta, Neste dia de dois d’Agosto excelso Dia p’ra nós gravado no imo d’alma!
Qual, atravez d’insolitos perigos, Vae de soccorro a um filho — o Pai bondoso, Tal, entre nós, Accacio da Silveira; Sem medo á morte, no rigor de um clima,
Por sóes queimado De peste insana, Accode e vôa, melhorando os fados Da rica terra d’Africa a seu mando!
Com gesto brando, e com olhar bem fito Aos int’resses da pátria, — qu’em seu peito, Com voz d’alma lhe bradam, attento presta Melhoramentos na Provincia morta, Pelo mundo olvidada, e só, e triste, Qu’inda mais rica fôra, se do avaro A mente ardida, e as mãos sempre pejadas Do oiro qu’em seu seio arranca astuto, Não contivera em bando os que hão brotado!
Mas fadou-nos o Céo tão meiga Estrella, Em nós já fulgurando, — e tão serena, Que Fados só de amor, e de venturas Se nos antolham ricos — e prismados! Saúdemos — Deos — o Regedor do Mundo! Saúdemos na Monarcha — a mui cabida, — A meritoria Escolha! — Saúdemos!
E um hymno de glôria dos Céos emmanado, Nascido do peito, sentido em noss’alma, Do côro dos Anjos — por elle inspirado Cantemos a Accacio — e teçamos a palma
Virente, e despedida D’insensos gelados, Mas só revestida De odores fadados De brilho e primor Na estima, e no amor!
Gloria a ti, que nos reges bondoso Nestes plainos do ardente torrão, Onde a esp’rança já morta renasce, Onde é livre, quem livre é Christão!
Já de sobre estes montes voseia Essa Lei — qu’escreveste co’a mão, — Santa Lei que de rôjo posterga Os martyrios, e dura oppressão.
Tudo corre, e s’apresta anhelante Na Cidade, e no campo a bradar, — «Viva Accacio que n’Africa rege, Qu’em noss’alma sempre hade reinar!»
Gloria a ti, que nos reges bondoso Nestes plainos do ardente torrão, Onde a esp’rança já morta renasce Arvorando o seu nobre pendão!