Portuguese poem
Mulher que tanto amei, e que amo ainda
by José da Silva Maia Ferreira (1827–1881)
Armia, oh! não te exponhas De um Numen ao furor, Se as leis d’amor não cumpres, Teme o poder d’amor!
Mulher que tanto amei, e que amo ainda, Não sei se Nume ou Deusa, Arminda minha, Anjo, Nympha, Mulher, meu ser na vida, Ai — recebe o meu só nascido d’alma Amoroso suspiro e terno e forte, Da mais negra saudade trasbordando, Qu’em aridos torrões da terra sua, D’Africa adusta o miserando Vate, Nas aureas azas de suave brisa, Saudoso e melancolico t’envia!
Em um monte d’arêas formulado No seu cume assentado e só, e triste, De saudades a mente acalentando, E no rigor de um sol ardente e forte, A ti meus ais, a ti meu pranto envio!
Ahi — aonde habitas, tão distante Do teu unico amor qu’então dizias, Ahi, onde feliz gozei outr’ora Dos mais primados gozos de ventura, Que a um céu d’amor extasiados,
Presos em corpo, e alma — ambos bem juntos, Descrendo desta vida — o mundo inteiro Em ti só resumido eu divisava; E eu era o teu Anjo a quem só qu’rias; Ahi — quem sabe, se o teu peito ainda Soluçando por mim arfa constante! Quem sabe se algum verme venenoso Corroeu-t’o, infeliz, — tornou-te ingrata! Ou tambem se d’astuto aventureiro, Fementido e fallaz, e vil cobarde Um outro amor no adyto do peito T’infiltrou, e de mim ousado zomba, Em teus braços só meus, só meus outr’ora!! Mas não! — neste delirio eu crer não posso, Que mais do que perjura então serias, Tu fôras barb’ra — deshumana fôras!
Quer junto a aridas plagas — Quer a frondoso coqueiro — Quer em bosque emmaranho, Quer no cimo de um outeiro, —
Quer vivendo léda vida — Quer carpindo imiga sorte — As minhas juras d’amor Guardarei até á morte.
Alada mensagem Me venha vida — Arminda és fiel — Fiel té morrer!
E a sorte choremos Que avessa nos é — Mas não blasphemos — Vivamos co’a Fé!