Portuguese poem
O Batel!
by José da Silva Maia Ferreira (1827–1881)
Rema, rema, gondoleiro, Que bem me faz teu remar, Corta as vagas, rema, rema, Prestes corre sem parar.
Solta a véla, cassa a escola, Deixa o batel voar, Qu’este andar tão vagaroso Crua dôr me faz penar.
Que t’importa o rijo vento Que tão forte vae soprar? — Solta a véla, gondoleiro, Corre e vôa sem parar.
Que t’importa o furacão, E essas ondas a brigar? Rema, rema, gondoleiro P’ra o logar que t’indicar.
Vae ao porto do destino Em que a sorte me fadou Procurar quem só de amores Cruelmente me matou.
Quem tambem a vida e a morte, E o coração me roubou,
Esse anjo que na terra Minh’alma idolatrou.
Quem venturas só do Ceo Magamente m’infiltrou A mim, que louco d’amor, Louco e insano me tornou.
Rema, rema, gondoleiro, Que bem me faz teu remar, Corta as vagas, rema, rema, Corre e vôa sem parar.
Porém não! — Cassa a vela, Leva remos, gondoleiro, Eis o porto do meu fado Do meu fado derradeiro.
Vou cumprir uma missão — Não sei mais se voltarei Nunca digas, gondoleiro, As vozes que aqui soltei!