Versos Portuguese Luís Delfino À América

Portuguese poem

À América

by (1834–1910)

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Quinze de novembro de mil oitocentos e noventa e nove

À AMÉRICA

O BRASIL NOVO

Livre enfim dos seus últimos ferros, Das cadeias mais vis desatado, Calmo, forte, invencível, ao lado Dos irmãos desta América o vês: Livre, em pé, ante o mar e menos livre, Não lhe enturva a vergonha o semblante, De ter ele —tão grande e possante— Um senhor, que o avassala, em seus reis.

Levantado em montes, e serras, Do áureo plinto de folha e granito, A águia branca, que roça o infinito, Vê subir; e ele inveja não tem: Rubra aurora, que o cinge e o encontrava, Hirta a fronte, empanada de pejo, Sente, que hoje, imprimindo-lhe um beijo, Beija a fronte de um livre também.

Já não mancha esta América vasta, O Brasil, vasto, enorme, colosso, Aço rude de escravo ao pescoço, No olhar largo de um deus o pesar: O farrapo de treva deixado, Pelo tempo já ido em seu dorso, N’um momento, n’um último esforço, Sacudiu em mil voltas no ar.

Renascemos p’ra América livre: Viva a América livre e sem peias: Fundam todos as velhas cadeias, Peso ignóbil da nossa cerviz: Tudo à forja; renove-se tudo, Da cidade ao recesso da mata, Desde as cristas dos antes ao Prata; Arda em luz toda nova o País.

Liberdade, ó gentil foragida, Deus austera entre as deusas austeras, Tu chegaste, e contigo outras eras, Outros sóis, outros céus mais azuis: Há no ambiente uns aromas mais novos, Bater d’asas à borda dos ninhos... Listrões d’oiro bordando os caminhos: Luz, mais luz... muita luz... muita luz

Há rosais pelas bocas sangrentas De suas rosas cantando perfumes... Dança louca de estrelas e numes, Dança louca de ondinas e sóis... Canta envolto nas algas e espumas, O ombro nu, verde, um pouco de fora, Mesmo oceano, que ri e que chora, Chora e ri, junto à praia, entre nós.

Astros d’oiro, estrelados abismos, Reis e deuses, é livre, quem pensa, E não tem outra fé, outra crença, Outro amor, e esperança não tem, Que não seja esta luta perene, Contra vós fatalmente levada: Deus, és tu, Liberdade, e mais nada:— Céu, és tu, ó conquista do Bem.

Viva a América livre entre os povos, Livre e só entre os mais continentes: Honra e glória ao imortal Tiradentes; O patíbulo hoje é o seu pedestal: Honra e glória aos soldados da pátria; Honra e glória a este povo sublime, Que dos reis, que dos vis se redime, Calmo ainda na ebriez triunfal.

Oh! Romano, a virtude é só nome? Tu negando-a afirmaste a virtude: Dás na ação e na doce atitude, Brasil livre, e senhor dos teus reis, Um exemplo inda novo, e não visto: Esta terra, esta gente, esta raça Arroubada a este sopro, que passa, Ser o espanto do Tempo vereis.

Esta grande conquista foi nossa... Nossa enfim: nenhum rei no-la tira: Nem o poeta a renega na lira, Nem a história há de, infame, a negar: Fomos nós, que esta pátria avivamos: Fomos nós que a fizemos de novo: Glória! Glória à conquista do povo, Que rompeu a prisão secular.

Maldição sobre as frontes vergadas, Sobre as mãos estendidas, buscando Vida, sangue em cadáveres, quando Tudo é grande— olha em torno e verás: Tudo é grande, e cascalham risadas, Que andam rindo já dentro da história, Que recolhe este dia de glória, Obra nossa, e de avós, e de pais...

Rei? Não mais: não queremos; não vinga Entre nós essa raça maldita, Que só crê, pensa, e sonha, e medita, Ter no povo, que a sofre, uma grei; Planta exótica e má d’outras zonas, D’outros céus, d’outros sóis, d’outra esfera,... Quem de um rei senão ferros espera? Bastou já: não queremos mais rei.

Que é um rei?— É um ídolo apenas, Que a ambição e a ignorância levanta, A que o bravo não dobra uma planta, Baixo culto dos tímidos só: Vulto erguido do meio dos povos, Como a sirte nos mares deitada, Onde a vaga, que a toca, esmagada, Não é mais vaga, é uma nuvem de pó.

Sabeis vós, pobres povos incautos? Antes que um grande povo apareça, E o homem possa erguer alto a cabeça, Possa ver d’alto auroras e sóis, Quanto ferro batido no ferro, Quanto sangue inocente esgotou-se; Como flores caídas à fouce, Quantas frontes caíram de heróis!

Não queremos mais rei, o mais sábio, O mais justo, o mais forte, o mais casto: Salomão com juízo tão vasto, Com leis novas um novo Moisés: Mesmo Deus, que outra vez se lembrasse De ser rei, entre estrelas surgisse, Belo, grande, amor todo, e meiguice, Não golpeadas as mãos nem os pés.

Não— Ninguém tente a empresa arriscada De irritar o Leão generoso; Ninguém tome o seu calmo repouso, Como falta de audácia: olhai bem: Pôr-lhe um rei hoje ao alcance das garras!... Dize ao raio, buscando-te, espera: Passa ileso através da cratera: Mas não tente esse crime ninguém!

Norte e sul n’um amplexo eviterno, N”um delírio de crença e igualdade, Jurem todos por ti, Liberdade, Jurem todos viver ou morrer: E se um dia no campo de luta Alguém ouse atacá-lo, covarde! Saiba o culto, que n’alma arde, Sinta, como é cumprido um dever.

Brasileiros, guardemos unidos O torrão desta pátria querida: Demos tudo que é seu, alma e vida; Tudo à pátria é preciso entregar: Tudo é dela: a ela tudo devemos: Esta pátria hoje é nossa de todo: Arrancou-se este escrínio do lodo, Arrancou-se esta pérola ao mar.

Velhos reis medievais, velhas raças, Entre anseio, entre susto, entre pasmo, O Brasil, com seu calmo entusiasmo, Grande assim, não podíeis supor: Vistes, forte, explosir o improviso Quem vós crieis tão baixo e tão nulo!... Assim rompe de negro casulo Flor aérea de esplêndida cor.

Assim rompe uma estrela a Colombo, Outros sóis se constelam no espaço, E d’entre algas, corais, e sargaço, Outro mundo aparece a Cabral; Assim surge essa nova bandeira De repente por terras e mares... Dize aos povos, por onde passares, Que és de um povo já livre o fanal.

Lavas tu uma nesga vermelha, Que recorde o ser livre, o que custa? Muito sangue, que a raça robusta Deu à terra, e que à terra há de dar: Preito ao sangue de heróis deslembrados, Nos calvários das forcas trepando: É assim, pavilhão venerando, Que ir tu deves por terra e por mar.

És a paz, ó bandeira da pátria? És a paz:— mas a paz aconselha, Que o clarão dessa aurora vermelha Deve em todos os céus resplender: Mostras nele a lembrança do sangue, Que, se agora não foi derramado, Rios dele há contudo custado: E ainda há sangue, inda há sangue a perder!...

Que cadeias nos cercam, que fios Invisíveis, como hera selvagem, Que entre fendas buscando passagem Muros prende, que em torno abrangeu: Que heras doidas envolve nossa alma! Somos livres, mas fomos escravos: E inda temos as pontas dos cravos Que pregaram a cruz de Prometeu.

E inda resta essa velha atitude D’alma humana esmagada e vencida: Triste sim!, Liberdade querida, Largo tempo esse gesto hás de ver: Bate à malho Canôva o Carrara, Berrecil bate a prata à martelo; Cada golpe é o vagido do belo; N’alma humana é preciso bater.

E a alma humana desperta e festeja Seu primeiro triunfo; ela sente Ser levada por nova torrente, Haustos sorve de vida auroral: Tem a terra ante si dilatada. Tem o céu brasileiro o mais puro... Como é grande o seu grande futuro, Liberdade, ao teu grande ideal!...

Furacões de jasmins e açucenas, Céus, que arranco do céus aos pedaços, Sóis inquietos, que prendo em meus braços, Ígneas rosas, cecens da manhã, Veigas d’oiro em dous dedos de mata... O meu hino isto tudo desata A teus pés, pátria minha louçã

Sim! é livre o Brasil!... E ainda ontem Libertado do escravo, se ouvia Louco brado de louca alegria Soar no mundo:— essa nódoa era vil, Larga, extensa, profunda, horrorosa!... A dos reis, mais hedionda, restava! Bravo à terra não deles escrava!... Bravo! Bravo!... Está livre o Brasil—

Luiz Delfino