Portuguese poem
O mal
by Luís Delfino (1834–1910)
Eu não imploro nunca aos deuses superiores: No meu orgulho sei que rirão de piedade; Eles conhecem bem a pobre humanidade, E a jaula onde está preso o cão de nossas dores.
Ninguém sai de si mesmo, e sai dos seus horrores, Somos isto: não há mudar na eternidade: Há para nós em tudo uma cumplicidade; Levas contigo o mal sem fim, para onde fores.
O mal, obra que acusa um grande pensamento, O mal, que prende o céu à terra, o mar ao vento, O mal, do qual um deus foi exímio escultor;
Que é deus mesmo, — e será? eu dentro em mim pergunto, - Que encosta o dia à noite, e o pranto ao rir põe junto, O mal único, o mal, que é todo o mal, — é o amor.