Portuguese poem
A Flor Do Embiroçu
Noite, melhor que o dia, quem não te ama?
FIL. ELIS.
Quando a noturna sombra envolve a terra E á paz convida o lavrador cansado, Á fresca brisa o seio delicado A branca flôr do embiroçú descerra.
E das limpidas lagrimas que chora A noite amiga, ella recolhe alguma; A vida bebe na ligeira bruma, Até que rompe no horizonte a aurora.
Então, á luz nascente, a flôr modesta, Quando tudo o que vive alma recobra, Languidamente as suas folhas dobra, E busca o somno quando tudo é festa.
Suave imagem da alma que suspira E odeia a turba vã! da alma que sente Agitar-se-lhe a aza impaciente E a novos mundos transportar-se aspira!
Tambem ella ama as horas silenciosas, E quando a vida as lutas interrompe, Ella da carne os duros elos rompe, E entrega o seio ás ilusões viçosas.
É tudo seu,--tempo, fortuna, espaço, E o céu azul e os seus milhões de estrellas; Abrazada de amor, palpita ao vel-as, E a todas cinge no ideal abraço.
O rosto não encara indifferente, Nem a traidora mão candida aperta; Das mentiras da vida se liberta E entra no mundo que jamais não mente.
Noite, melhor que o dia, quem não te ama? Labor ingrato, agitação, fadiga, Tudo faz esquecer tua aza amiga Que a alma nos leva onde a ventura a chama.
Ama-te a flôr que desabrocha á hora Em que o ultimo olhar o sol lhe estende, Vive, embala-se, orvalha-se, recende, E as folhas cerra quando rompe a aurora.