Portuguese poem
A Derradeira Injúria
I
Vês um féretro posto em solitária igreja? Esse pó que descansa, e se esconde, e se some, Traz de um grande ministro o formidável nome, Que em vivas letras de ouro e lágrimas flameja.
Lá fora uma invasão esquálida braceja, Como um mar de miséria e luto, que tem fome, E novas praias busca e novas praias come, Enquanto a multidão, recuando, peleja.
O gaulês que persegue, o bretão que defende, Duas mãos de um destino implacável e oculto, Vão sangrando a nação exausta que se rende;
Dentre os mortos da história um só único vulto Não ressurge; um Pacheco, um Castro não atende; E a cobiça recolhe os despojos do insulto.
II
Ora, na solitária igreja em que se há posto O féretro, se alguém pudesse ouvir, ouvira Uma voz cavernosa e repassada de ira, De tristeza e desgosto.
Era uma voz sem rosto, Um eco sem rumor, uma nota sem lira. Como que o suspirar do cadáver disposto A rejeitar o leito eterno em que dormira.
E ninguém, salvo tu, ó pálido, ó suave Cristo, ninguém, exceto uns três ou quatro santos, Envolvidos e sós, nos seus sombrios mantos,
Ninguém ouvia em toda aquela escura nave Dessa voz tão severa, e tão triste, e tão grave, Murmurados a medo, as cóleras e os prantos.
III
E dizia essa voz: — “Eis, Lusitânia, a espada Que reluz, como o sol, e como o raio, lança Sobre a atônita Europa a morte ensangüentada.
“Venceu tudo; ei-la aí que te fere e te alcança, Que te rasga e te põe na cabeça prostrada O terrível sinal das legiões de França.
“E, como se o furor, e, como se a ruína Não bastassem a dar-te a pena grande e inteira, Vem juntar-se outra dor à tua dor primeira, E o que a espada começa a tristeza termina.
“És o campo funesto e rude em que se afina Pugna estranha; não tens a glória derradeira, De devolver farpada e vencida a bandeira, E ser Xerxes embora, ao pé de Salamina.
IV
“No entanto, ao longe, ao longe uma comprida história De batalhas e descobertas, Um entrar de contínuo as portas da memória Escancaradamente abertas,
“Enchia esta nação, que aprendera a vitória Naquela crespa idade antiga, Quando, em vez do repouso, era a lei da fadiga, E a glória coroava a glória.
“E assim foi, palmo a palmo, e reduto a reduto, Que um punhado de heróis, que um embrião de povo Levantara este reino novo;
“E livre, independente, esse áspero produto Da imensa forja pôde, achegando-se às plagas, Fitar ao longe as longas vagas.
V
“Era escasso o torrão; por compensar-lhe a míngua, Assim foi que dobraste aquele oculto cabo, Não sabido de Plínio, ignorado de Estrabo, E que Homero cantou em uma nova língua.
“Assim foi que pudeste haver África adusta, Ásia, e esse futuro e desmedido império, Que no fecundo chão do recente hemisfério A semente brotou da tua raça augusta.
“Eis, Lusitânia, a obra. Os séculos que a viram Emergir, com o sol dos mares, e a poliram, Transmitem-lhe a memória aos séculos futuros.
“Hoje a terra de heróis sofre a planta inimiga... Quem pudera mandar aqueles peitos duros! Quem soubera empregar aquela força antiga!”
VI
E depois de um silêncio: — “Um dia, um dia, um dia Houve em que nesta nobre e antiga monarquia, Um homem, — paz lhe seja e a quantos lhe consomem A sagrada memória, — houve um dia em que um homem
“Posto ao lado do rei e ao lado do perigo Viu abater o chão; viu as pedras candentes Ruírem; viu o mal das cousas e das gentes, E um povo inteiro nu de pão, de luz e abrigo.
“Esse homem, ao fitar uma cidade em ossos, Terror, dissolução, crime, fome, penúria, Não se deixou cair coos últimos destroços.
“Opôs a força à força, opôs a pena à injúria, Restituiu ao povo a perdida hombridade, E donde era uma ruína ergueu uma cidade.
VII
“Esse homem eras tu, ó alma que repousas Da cobiça, da glória e da ambição do mando, Eras tu, que um destino, e propício, e nefando, Ao fastígio elevou dos homens e das cousas.
“Eras tu que da sede ingrata de ministro Fizeste um sólio ao pé do sólio; tu, sinistro Ao passado, tu novo obreiro, áspero e duro, Que traçavas no chão a planta do futuro.
“Tu querias fazer da história uma só massa Nas tuas fortes mãos, tenazes como a vida, A massa obediente e nua.
“A luminosa efígie tua Quiseste dar-lhe, como à brônzea estátua erguida, Que o século corteja, inda assustado, e passa.
VIII
“Contra aquele edifício velho Da nobreza, — elevado ao lado do edifício Da monarquia e do evangelho, — Tu puseste a reforma e puseste o suplício.
“Querias destruir o vício Que a teus olhos roía essa fábrica enorme, E começaste o duro ofício Contra o que era caduco, e contra o que era informe.
“Não te fez recuar nesse áspero duelo Nem dos anos a flor, nem dos anos o gelo, Nem dos olhos das mães as lágrimas sagradas.
“Nada; nem o negror austero da batina, Nem as débeis feições da graça feminina Pela veneração e pelo amor choradas.
IX
“Ah! se por um prodígio especial da sorte, Pudesses emergir das entranhas da morte, Cheio daquela antiga e fera gravidade, Com que salvaste uma cidade;
“Quem sabe? Não houvera em tão longa campanha Ensangüentado o chão do luso a planta estranha, Nem correra a nação tal dor e tais perigos Às mãos de amigos e inimigos.
“Tu serias o mesmo aspérrimo e impassível Que viu, sem desmaiar, o conflito terrível Da natureza escura e da escura alma humana;
“Que levantando ao céu a fronte soberana, — “Eis o homem!” disseste, — e a garra do destino Indelével te pôs o seu sinal divino”.
X
E, soltado esse lamento Ao pé do grande moimento, Calou-se a voz, dolorida De indignação.
Nenhum outro som de vida Naquela igreja escondida... Era uma pausa, um momento De solidão.
E continuavam fora A morte, dona e senhora Da multidão;
E devastava a batalha, Como o temporal que espalha Folhas ao chão.
XI
E essa voz era a tua, ó triste e solitário Espírito! eras tu, forte outrora e vibrante, Que pousavas agora, — apenas cintilante, — Sobre o féretro, como a luz de um lampadário.
Era tua essa voz do asilo mortuário, Essa voz que esquecia o ódio triunfante Contra o que havia feito a tua mão possante, E a inveja que te deu o pontual salário.
E contigo falava uma nação inteira, E gemia com ela a história, não a história Que bajula ou destrói, que morde ou santifica.
Não; mas a história pura, austera, verdadeira, Que de uma vida errada a parte que lhe fica De glória, não esconde às ovações da glória.
XII
E, tendo emudecido essa garganta morta, O silêncio voltara àquela nave escura, Quando subitamente abre-se a velha porta, E penetra na igreja uma estranha figura.
Depois outra, e mais outra, e mais três, e mais quatro. E todas, estendendo os braços, vão abrindo As trevas, costeando os muros, e seguindo Como a conspiração nas tábuas de um teatro.
E param juntamente em derredor do leito Último em que descansa esse único despojo De uma vida, que foi uma longa batalha.
E enquanto um fere a luz que as tênebras espalha, Outro, com gesto firme e firmíssimo arrojo, Toma nas cruas mãos aquele rei desfeito.
XIII
Então... O homem que viu arrancarem-lhe aos braços Poder, glória, ambição, tudo o que amado havia; Esse que foi o sol de um século, que um dia, Um só dia bastou para fazer pedaços;
Que, se aos ombros atara uma púrpura nova, Viu, farrapo a farrapo, arrancarem-lha aos ombros; Que padecera em vida os últimos assombros, Tinha ainda na morte uma última prova.
Era a brutal rapina, anônima, noturna, Era a mão casual, que espedaçava a urna A troco de um galão, a troco de uma espada;
Que, depois de tomar-lhe esses sinais funestos Da sombra de um poder, pegou dos tristes restos, Ossos só, e espalhou pela nave sagrada.
XIV
Assim pois, nada falta à glória deste mundo, Nem a perseguição repleta de ódio e sanha, Nem a fértil inveja, a lívida campanha, De tudo o que radia e tudo que é profundo.
Nada falta ao poder, quando o poder acaba; Nada; nem a calúnia, o escárnio, a injúria, a intriga, E, por triste coroa à merencória liga, A ingratidão que esquece e a ingratidão que baba.
Faltava a violação do último sono eterno, Não para saciar um ódio insaciável, Insaciável como os círculos do inferno.
E deram-ta; eis-te aí, ó grande invulnerável, Eis-te ossada sem nome, esparsa e miserável, Sobre um pouco de chão do ninho teu paterno.