Versos Portuguese Machado de Assis A Cólera do Império

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A Cólera do Império

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De pé! — Quando o inimigo o solo invade Ergue-se o povo inteiro; e a espada em punho É como um raio vingador dos livres!

Que espetáculo é este! — Um grito apenas Bastou para acordar do sono o império! Era o grito das vítimas. No leito, Em que a pusera Deus, o vasto corpo Ergue a imensa nação. Fulmíneos olhos Lança em torno de si: — lúgubre aspecto A terra patenteia; o sangue puro, O sangue de seus filhos corre em ondas Que dos rios gigantes da floresta Tingem as turvas, assustadas águas. Talam seus campos legiões de ingratos. Como um cortejo fúnebre, a desonra E a morte as vão seguindo, e as vão guiando, Ante a espada dos bárbaros, não vale A coroa dos velhos; a inocência Debalde aperta ao seio as vestes brancas... É preciso cair. Pudor, velhice, Não nos conhecem eles. Nos altares Daquela gente, imola-se a virtude!

O império estremeceu. A liberdade Passou-lhe às mãos o gládio sacrossanto, O gládio de Camilo. O novo Breno Já pisa o chão da pátria. Avante! avante! Leva de um golpe aquela turba infrene! É preciso vencer! Manda a justiça, Manda a honra lavar com sangue as culpas De um punhado de escravos. Ai daquele Que a face maculou da terra livre! Cada palmo do chão vomita um homem! E do Norte, e do Sul, como esses rios Que vão, sulcando a terra, encher os mares, À falange comum os bravos correm!

Então (nobre espetáculo, só próprio De almas livres!) então rompem-se os elos De homens a homens. Coração, família, Abafam-se, aniquilam-se: perdura Uma idéia, a da pátria. As mães sorrindo Armam os filhos, beijam-nos; outrora Não faziam melhor as mães de Esparta. Deixa o tálamo o esposo; a própria esposa É quem lhe cinge a espada vingadora. Tu, brioso mancebo, às aras foges, Onde himeneu te espera; a noiva aguarda Cingir mais tarde na virgínea fronte Rosas de esposa ou crepe de viúva.

E vão todos, não pérfidos soldados Como esses que a traição lançou nos campos; Vão como homens. A flama que os alenta É o ideal esplêndido da pátria. Não os move um senhor; a veneranda Imagem do dever é que os domina. Esta bandeira é símbolo; não cobre, Como a deles, um túmulo de vivos. Hão de vencer! Atônito, confuso, O covarde inimigo há de abater-se; E da opressa Assunção transpondo os muros Terá por prêmio a sorte dos vencidos.

Basta isso? Ainda não. Se o império é fogo, Também é luz: abrasa, mas aclara. Onde levar a flama da justiça, Deixa um raio de nova liberdade. Não lhe basta escrever uma vitória, Lá, onde a tirania oprime um povo; Outra, tão grande, lhe desperta os brios; Vença uma vez no campo, outra nas almas; Quebre as duras algemas que roxeiam Pulsos de escravos. Faça-os homens.

Treme, Treme, opressor, da cólera do império! Longo há que às tuas mãos a liberdade Sufocada soluça. A escura noite Cobre de há muito o teu domínio estreito; Tu mesmo abriste as portas do Oriente; Rompe a luz; foge ao dia! O Deus dos justos Os soluços ouviu dos teus escravos, E os olhos te cegou para perder-te!

O povo um dia cobrirá de flores, A imagem do Brasil. A liberdade Unirá como um elo estes dous povos. A mão, que a audácia castigou de ingratos, Apertará somente a mão de amigos. E a túnica farpada do tirano, Que inda os quebrados ânimos assusta, Será, aos olhos da nação remida, A severa lição de extintos tempos!