Versos Portuguese Machado de Assis A Morte de Ofélia

Portuguese poem

A Morte de Ofélia

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Junto ao placido rio Que entre margens de relva e fina areia Murmura e serpenteia, O tronco se levanta, O tronco melancolico e sombrio De um salgueiro. Uma fresca e branda aragem

Alli suspira e canta, Abraçando-se á tremula folhagem Que se espelha na onda voluptuosa. Alli a desditosa, A triste Ophelia foi sentar-se um dia. Enchião-lhe o regaço umas capellas Por suas mãos tecidas De varias flôres bellas, Pallidas margaridas, E rainunculos, e essas outras flôres A que dá feio nome o povo rude, E a casta juventude Chama — dedos da morte. — O olhar celeste Alevantando aos ramos do salgueiro, Quiz alli pendurar a offrenda agreste. N'um galho traiçoeiro Firmára os lindos pés, e já seu braço. Os ramos alcançando, Ia depôr a offrenda peregrina De suas flôres, quando Rompendo o apoio escasso, A pallida menina Nas aguas resvalou; forão com ella Os seus — dedos da morte — e as margaridas. As vestes estendidas

Algum tempo a tiverão sobre as aguas, Como sereia bella, Que abraça ternamente a onda amiga. Então, abrindo a voz harmoniosa, Não por chorar as suas fundas mágoas, Mas por soltar a nota deliciosa De uma canção antiga, A pobre naufragada De alegres sons enchia os ares tristes, Como se alli não visse a sepultura, Ou fosse alli creada. Mas de subito as roupas embebidas Da lympha calma e pura Levão-lhe o corpo ao fundo da corrente, Cortando-lhe no labio a voz e o canto. As aguas homicidas, Como a lage de um tumulo recente, Fechárão-se; e sobre ellas. Triste emblema de dôr e de saudade, Forão nadando as ultimas capellas.