Portuguese poem
A Morte no Calvário
I
Ei-lo, vai sobre o alto Calvário Morrer piedoso e calmo em uma cruz! Povos! naquele fúnebre sudário Envolto vai um sol de eterna luz!
Ali toda descansa a humanidade; É o seu salvador, o seu Moisés! Aquela cruz é o sol da liberdade Ante o qual são iguais povos e reis!
Povos, olhai! — As fachas mortuárias São-lhe os louros, as palmas, e os troféus! Povos, olhai! — As púrpuras cesáreas Valem acaso em face do Homem-Deus?
Vede! mana-lhe o sangue das feridas Como o preço da nossa redenção. Ide banhar os braços parricidas Nas águas desse fúnebre Jordão!
Ei-lo, vai sobre o alto do Calvário Morrer piedoso e calmo em uma cruz! Povos! naquele fúnebre sudário Envolto vai um sol de eterna luz!
II
Era o dia tremendo do holocausto... Deviam triunfar os fariseus... A cidade acordou toda no fausto, E à face das nações matava um Deus!
Palpitante, em frenético delírio A turba lá passou: vai imolar! Vai sagrar uma palma de martírio, E é a fronte do Gólgota o altar!
Em derredor a humanidade atenta Aguarda o sacrifício do Homem-Deus! Era o íris no meio da tormenta O martírio do filho dos Hebreus!
Eis o monte, o altar do sacrifício, Onde vai operar-se a redenção. Sobe a turba entoando um epinício E caminha com ela o novo Adão!
E vai como ia outrora às sinagogas As leis pregar do Sião e do Tabor! É que no seu sudário as alvas togas Vão cortar os tribunos do Senhor!
Planta-se a cruz. O Cristo está pendente; Cingem-lhe a fronte espinhos bem mortais; E cospe-lhe na face a turba ardente, E ressoam aplausos triunfais!
Ressoam como em Roma a populaça Aplaudindo o esforçado gladiador! É que são no delírio a mesma raça, A mesma geração tão sem pudor!
Ressoam como um cântico maldito Pelas trevas do século a vibrar! Mas as douradas leis de um novo rito Vão ali no Calvário começar!
Sim, é a hora. A humanidade espera Entre as trevas da morte e a eterna luz; Não é a redenção uma quimera, Ei-la simbolizada nessa cruz!
É a hora. Esgotou-se a amarga taça; Tudo está consumado; ele morreu, E aos cânticos da ardente populaça Em luto a natureza se envolveu!
Povos! realizou-se a liberdade, E toda consumou-se a redenção! Curvai-vos ante o sol da Cristandade E as plantas osculai do novo Adão!
Ide, ao som das sagradas melodias, Orar junto do Cristo como irmãos, Que os espinhos da fronte do Messias São as rosas da fronte dos cristãos!